NÃO EXISTE FRACASSO

E isso não é otimismo!

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

INTRODUÇÃO

Para esclarecer a função do sofrimento e da felicidade no processo de autorrealização, fiz uma brincadeira chamada “Eu vou pra lua”, com os participantes de uma palestra. Escrevi o gabarito da brincadeira em um caderno para eles terem a garantia de que não iria alterar o gabarito durante a brincadeira, mas não mostrei o gabarito para ninguém. Fechei o caderno com o gabarito dentro. O gabarito era: “comida com letra P”. Também não expliquei como a brincadeira funcionava, disse apenas: “Eu começo e vocês continuam”. Abaixo está uma breve descrição de como a brincadeira se desenrolou. Depois da descrição comparei a brincadeira com a experiência humana mostrando a função do fracasso e do sofrimento no processo de autorrealização.


EU VOU PARA LUA

Eu vou para lua e vou levar uma pizza.
E você? O que você vai levar?

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar um queijo.
Queijo não pode.

PARTICIPANTE: Eu vou para lua e vou levar uma pipa.
Pipa não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar uma bicicleta.
Bicicleta não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar uma gaita.
Gaita não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar uma bola.
Bola não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar café.
Café não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar um garfo.
Garfo não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar uma xícara.
Xícara não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar uma zebra.
Zebra não pode.

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar pipoca.
Pipoca pode!!!

PARTICIPANTE: Eu vou para lua e vou levar refrigerante.
Refrigerante não pode.

PARTICIPANTE: Eu vou para lua e vou levar um pastel.
Pastel pode!!!

PARTICIPANTE: Eu vou para lua e vou levar presunto.
Presunto pode!!!

PARTICIPANTE : Eu vou para lua e vou levar pimentão.
Pimentão pode!!!

PARTICIPANTE: Já sei! Pode comida com letra P.

Exato! O gabarito é “comida com letra P”.


Agora vamos entender por que essa brincadeira é análoga a experiência humana. A primeira semelhança é sobre como começa. Eu falei que era uma brincadeira, mas não falei como funcionava. Comecei começando e vocês foram brincando e descobrindo. O mesmo acontece na experiência humana. Você não recebe nenhuma explicação do que é ser humano antes de nascer. Você apenas nasce, absolutamente ignorante do que é ser humano e do ser humano que você é. Conforme você vai vivendo, você vai descobrindo, igual na brincadeira “Eu vou pra lua”.

A segunda semelhança, é que para levar uma coisa pra lua, você deve acertar o gabarito, mas você desconhece seu gabarito. A mesma coisa acontece na experiência humana, você também desconhece seu gabarito, ou seja, sua unicidade.

A terceira semelhança é que só tem um jeito de você descobrir seu gabarito: tentando acertar. Também é a mesma coisa na experiência humana. Quarta semelhança, é que toda vez que você erra, você começa a pensar no erro para descobrir o que tem de errado. Também é assim na experiência humana.

A quarta semelhança mostra que o fracasso é a escola do êxito. E ainda tem uma sutileza nisso. Vou deixá-la bem explícita. Eu não falei para você pensar no que tinha de errado nas opções. Você fez isso por conta própria. Você sempre faz isso por conta própria. É inevitável. Toda vez que você fracassa em algo que está tentando acertar, inevitavelmente, você se pergunta o que tem de errado no que você fez, porque não funcionou. O fracasso ativa seu pensamento causal, inevitavelmente. O fracasso é o gatilho do pensamento causal. Na sua experiência humana, fracasso é você vivendo mal, ou seja, sofrendo. Então, quando você está sofrendo, você começa a pensar na causa: “Por que estou sofrendo? O que estou fazendo errado? Qual é a causa do meu sofrimento?”. Pensar assim é inevitável, pois você quer viver bem, e para viver bem você precisa descobrir por que está vivendo mal.

Na brincadeira “Eu vou para lua”, o que estava errado, era que o gabarito que você pensou era diferente do gabarito no caderno. Você pensou em vários gabaritos, e tentou várias opções, mas só obteve êxito quando optou usando um gabarito igual ao gabarito no caderno. Na sua experiência humana acontece a mesma coisa. O gabarito no caderno é sua unicidade. Só que você não tem como ler o que está escrito no seu caderno. Você não tem acesso direto ao seu gabarito. Se tivesse, você não tinha como brincar de se descobrir, pois você já estaria descoberto. Você vai descobrindo seu gabarito através do sofrimento. Toda vez que você sofre você se pergunta: “Por que estou sofrendo? O que estou fazendo errado? Qual é a causa do meu sofrimento?”

Genericamente falando, seu erro é sempre o mesmo: você não está vivendo de acordo com seu gabarito, você não está sendo você mesmo, você está sendo outro. Seu erro é o outroísmo. Só que você não sabe quem você é. Essa é a dificuldade. Você não sabe qual é seu gabarito. Então, não lhe resta outra opção senão sofrer para aprender. Você tenta, tenta, tenta, e sofre, sofre, sofre. Só que cada vez que você sofre, inevitavelmente, você se questiona sobre a causa: “Por que estou sofrendo? O que estou fazendo errado? Qual é a causa do meu sofrimento?” Ou seja, você não sofre por acaso. Sofrimento tem uma função específica na experiência humana: fazer você pensar na causa e descobrir o que está errado. Quando você descobre, você muda de opção. Quando muda de opção, deixa de sofrer. Então, de certa forma, você sofre para deixar de sofrer.

Felicidade e sofrimento são os delatores da sua unicidade. São dedos duros do seu gabarito. Felicidade é você experimentando emoções agradáveis. Quando você experimenta paz, satisfação, gratidão, alegria, isso quer dizer que você está vivendo EM acordo com seu gabarito, ou seja, está realizando seu destino. Sofrimento é você experimentando emoções desagradáveis. Quando você experimenta ansiedade, desconforto, raiva, tristeza, isso quer dizer que você está vivendo SEM acordo com seu gabarito, ou seja, não está realizando seu destino. Sendo assim, e sendo sempre assim, tanto felicidade como sofrimento são dois professores lhe ensinando exatamente a mesma coisa: qual é sua unicidade, qual é seu gabarito.

Ou seja, você está condenado a vencer o jogo da autorrealização, pois tudo que você experimenta tem uma única função: ajudar você a vencer a ignorância e assim realizar seu destino. Você pode até adiar seu destino, mas não impedir, pois tudo que você experimenta trabalha para sua autorrealização. Tudo, tudo, tudo. Até seu fracasso. Principalmente seu fracasso. Assim como na brincadeira “Eu vou para lua”, você caminha de fracasso em fracasso para descobrir o gabarito no caderno, e ir pra lua, também na sua experiência humana você está caminhando de fracasso em fracasso para se autoconhecer e se autorrealizar.


RESUMINDO:

Não existe fracasso, tudo é aprendizagem.
Ou você consegue, ou você aprende.


FIM

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