JOGO DO CONTROLE

Como sair dele?

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01) INTRODUÇÃO AO JOGO

Feche os olhos. Imagine que você se juntou a um grupo de seres para jogar um jogo. Esse jogo funciona com todos vocês se trancando numa cadeia. Cada um é diferente do outro, só que ninguém sabe disso, pois cada um só sabe de si. Vocês entram nessa cadeia, fecham a porta e não tem como sair. O jogo é simples assim. Imaginou? Agora abra os olhos. É isso mesmo! Essa cadeia é exatamente essa experiência humana que você está experimentando. E por que é uma cadeia?

PARTICIPANTE: Para não fugir?

Do que você fugiria?

PARTICIPANTE: Da convivência com o outro.

Exatamente! Ser humano é se meter dentro de uma experiência de interação com os outros. Uma vez que você está na experiência humana, você não tem como sair da convivência humana. Esse é o simbolismo da cadeia. Você nunca está apenas vivendo, você está sempre convivendo.

Viver é conviver. A convivência é o tempo todo. Quer você goste quer não, quer esteja consciente quer não, você está preso na cadeia da convivência. Você não tem outra opção. Conviver é obrigatório.

Sendo assim, pergunto: O desafio dessa brincadeira é conviver?

PARTICIPANTE: Sim.

Não! Conviver não é desafio, pois não é opcional. Conviver é inevitável. Logo, o desafio da brincadeira da convivência tem que ser outro além da convivência. Qual?

PARTICIPANTE: Boa convivência.

Isso mesmo! Conviver bem ou conviver mal são as duas possibilidades dentro de uma brincadeira de convivência. Cada momento da sua experiência humana é um momento de convivência. Cada momento da sua experiência humana você pode conviver bem ou conviver mal. O desafio é conviver bem.

O primeiro capítulo do livro Egogame explica que “não existe vida, só existe viver”. Ou seja, você está sempre vivendo. O segundo capítulo explica que “viver é conviver”. Então, você nunca está vivendo, você está sempre convivendo. Nesse exato momento, por exemplo, seu viver é você participando dessa conversa que é você convivendo com todos os outros que estão igualmente convivendo aqui. Se você decidir sair dessa conversa e ir ao supermercado fazer compras, você estará convivendo com as pessoas que estiverem no supermercado. Se você decidir entrar numa caverna para não conviver com ninguém, você estará convivêndo com a caverna. Nem sempre sua convivência é com outro ser humano, mas sempre é com o outro.

Viver é conviver. Não tem para onde fugir. A todo instante você está convivendo e só lhe resta duas opções: conviver bem ou conviver mal. Ou seja, o que você pode optar é pela qualidade da sua convivência. Isso facilita demais viver, porque uma vez que você entende que viver é conviver, e que só tem duas opções: conviver bem ou conviver mal, com o que mais você precisa se ocupar senão em conviver bem? Todo o resto fica secundário. Todo o resto é apenas o tabuleiro do jogo. Todo resto é apenas cenário para seu único desafio: conviver bem.

PARTICIPANTE: E por que conviver bem é um desafio?

A dificuldade é que cada um dentro dessa cadeia tem um gabarito diferente, mas ninguém sabe disso. Cada um dentro dessa cadeia, supõe que o gabarito que serve pra si mesmo, serve para todos os outros. E cada um supoe isso, não por maldade, mas pela própria natureza da individualidade. Você é um indivíduo porque você sabe só de si. A natureza de ser um indivíduo impossibilita que você saiba a natureza do outro indivíduo. É por você não saber do outro que você não é o outro. Então, por não saber do outro, só lhe resta a possibilidade da suposição. Você se baseia em si e supõe seu gabarito para o outro. Se todos os indivíduos da cadeia tivessem o mesmo gabarito, ou se fosse possível um saber pelo outro, não haveria dificuldade, a brincadeira seria fácil. Mas a brincadeira é desafiadora justamente porque é necessário que você viva de acordo com o seu gabarito e conviva bem com o gabarito do outro, no escuro, sem saber do gabarito do outro. Esse é o desafio.

Vou resumir para concluir. Viver é conviver. Isso é inevitável. Sua convivência pode ser de dois tipos: má convivência ou boa convivência. Você opta entre viver autoísta e viver outroísta. Essa sua opção se desdobra em comportamentos. Seus comportamentos se desdobram na qualidade da sua convivência. Jogo do controle é quando você opta pelo viver outroísta que se desdobra em uma convivência outroísta.

02) ESTRATÉGIAS DE CONTROLE

Vou falar algumas palavras e peço para que vocês escrevam essas palavras no bloco de notas do computador. Estão prontos?

PARTICIPANTE: Sim, pode falar.

Sal, Açúcar, Limão e Melancia.

Escreveram?

PARTICIPANTE: Sim.

Ótimo! Agora vamos entrar no tema. Pergunto: É possível o outro controlar você? Sim ou não?

PARTICIPANTE: Sim.

PARTICIPANTE: Não.

Vamos começar pela resposta “não”. Justifique sua resposta.

PARTICIPANTE: Não, porque tenho arbítrio. Mesmo quando digo sim, querendo dizer não, a escolha é sempre minha, sou eu que decido.

Ótimo! Agora a resposta “sim”. Justifique sua resposta.

PARTICIPANTE: Sim, é possível o outro me controlar com minha permissão.

Percebem que as duas respostas, sim e não, possuem a mesma justificativa? Sim, o outro pode controlar você quando você permite. E não, o outro não pode controlar você quando você não permite. Ou seja, de fato, é impossível o outro controlar você, porque você tem arbítrio. E vice versa. O outro não pode controlar você nem você pode controlar o outro. O que impossibilita isso é o arbítrio.

Mas se é impossível controlar o outro ou ser controlado, devido ao arbítrio, qual é o sentido de estarmos aqui estudando estratégias de controle?

PARTICIPANTE: Ótima pergunta! Não sei.

Agora vou desdizer o que disse. É possível controlar o outro, e vice versa, muito embora exista o arbítrio. Como?

PARTICIPANTE: Ainda não sei.

Pelo convencimento.

Você não tem como controlar o outro e vice versa. Mas um pode convencer o outro. Seu arbítrio é como o teclado do seu computador, só você tem acesso, só você pode digitar nele, sua realidade é o que aparece na tela, resultado do seu arbítrio, ou seja, resultado do que você digita no seu teclado. No começo dessa conversa apareceram quatro palavras na tela do computador de vocês, não foi?

PARTICIPANTE: Sal, Açúcar, Limão e Melancia.

Isso mesmo! Eu queria que vocês escrevessem essas quatro palavras. Era um desejo meu, não era de vocês. Só que eu não tenho acesso ao teclado de vocês. Ou seja, não tenho como controlar o arbítrio de vocês. Contudo, eu controlei. Tanto controlei que essas quatro palavras estão aparecendo ai na tela do computador de vocês. Como isso é possível.

PARTICIPANTE: Você pediu para que nós escrevêssemos e nós atendemos seu pedido.

Exato! Eu fiz um pedido e convenci vocês a fazerem o que eu queria. Só que quem fez não fui eu, foram vocês.

Tá claro isso?

PARTICIPANTE: Sim

Se quem fez foi você, o que isso significa?

PARTICIPANTE: Não sei.

Significa que quem fez não fui eu, foi você.

PARTICIPANTE: Sim, óbvio.

O que você experimenta é sempre o que você opta experimentar, quer seja uma opção que você mesmo imagine, quer seja uma sugestão do outro. No final das contas, em questão de experimentação, pouco importa de onde vem a opção, da sua própria imaginação ou de uma sugestão alheia, tudo se resume ao seu arbítrio. Se você não quer experimentar limão, basta você não optar por essa opção. Assim como é impossível a palavra limão aparecer na tela do seu computador se você não digitá-la, também é impossível a experiencia limão aparecer na sua experiência se você não optar por ela. Você está sempre no controle da sua experiência, pois até mesmo para você fazer o que o outro quer que você faça, você precisa optar por isso. Seu arbítrio é sempre a causa do que você está experimentando. Ou seja, o outro pode tentar te controlar, mas não pode conseguir. O outro só consegue te controlar com sua permissão. E vice versa. Você pode tentar controlar o outro, mas não pode conseguir também. Você só consegue controlar o outro com permissão dele.

O filme Advogado do Diabo tem um ótimo exemplo disso. O advogado diz ao diabo: “Você me manipulou, me enganou, você me levou a fazer essas coisas”. O diabo responde: “Engano seu, pois até lhe disse para desistir. Você fez tudo por opção sua”. Ou seja, embora o outro possa e esteja constantemente te manipulando e vice versa, embora o outro possa e esteja constantemente te influenciando e vice versa, a responsabilidade pelo que cada um está experimentando é sempre de cada um.

Influenciar não é determinar. Entre as influencias e a realidade experimentada, está o arbítrio. O ambiente pode influenciar fortemente na decisão. De fato, o ambiente sempre influencia fortemente na decisão. Mas influenciar não é decidir. No filme Advogado do Diabo, o diabo influenciou o advogado, tentou convencê-lo de várias formas a fazer o que ele queria, mas não determinou a escolha do advogado. Eu fiz a mesma coisa quando pedi para vocês escreverem “sal, limão, açúcar e melancia” no computador. Eu influenciei vocês, mas quem escreveu foram vocês.

Para controlar o outro, você precisa convencer o outro, pois é impossível controlar o outro de forma direta, atuando no arbítrio do outro. Assim como um não tem como digitar as palavras “sal, limão, açúcar e melancia” no teclado do outro, pois somente cada um tem acesso ao próprio teclado, só cada um pode executar o próprio arbítrio.

Para que seja possível um controlar o outro, é necessário um meio de influência. Meio é a estratégia, maneira, jeito, método. No início dessa conversa, para que vocês fizessem o que eu queria, eu disse: “Preciso da ajuda de vocês, por favor, façam uma coisa para mim. Será importante para o entendimento do que vamos estudar hoje”. Essa foi minha estratégia de convencimento para convencer vocês a fazerem o que eu queria. E minha estratégia funcionou. Porém, só influenciei, vocês só escreveram porque aceitaram minha influência.

É fundamental entender a diferença entre determinação e influência. Muitas coisas podem te influenciar, as vezes a influência é quase irresistível, mas não é determinação. O que determina seu viver é sua escolha, seu arbítrio.

O diabo representa a influência tentadora. O diabo pode ser uma circunstancia, uma pessoa, uma sociedade, o que for. O diabo representa algo que está tentando fazer com que você saia do viver autoísta e entre no jogo do controle (outroísmo). Mas o diabo não pode ganhar de deus. Por que não? Porque deus é seu arbítrio. O que cria sua realidade é seu arbítrio. Então, só você pode criar sua realidade.

Mas para que estudar estratégias de controle, se você não quer jogar o jogo do controle?

PARTICIPANTE: Para eu não cair em tentação.

Mais do que isso! Para você sair da tentação que está caído. Você vive caído em tentação. Seu viver é o jogo do controle. Só que você não percebe isso. O estudo das suas estratégias de controle é para você perceber o que você está constantemente fazendo, mas não percebe. Você está doente e o caminho para cura é você estudar minuciosamente sua doença. Suas estratégias de controle são as minúcias da sua doença.

03) CONTROLE PELA PUNIÇÃO

Quer você esteja consciente, quer não esteja, você está jogando o jogo do controle. Você executa o jogo do controle através de estratégias. Então, quer você esteja consciente, quer não esteja, você está constantemente executando estratégias de controle.

Só existem duas estratégias de controle. Sendo que todo ser quer sempre a mesma coisa, o bem, e todos repudiam a mesma coisa, o mal. Então, uma forma de você controlar o outro é através do mal, da punição, e a outra forma é através do bem, da recompensa.

No jogo do controle, você controla o outro através do que ele quer (recompensa) ou através do que ele não quer (punição) e você é controlado da mesma maneira. A punição ocorre até que o outro faça o que você quer, ou seja, viva de acordo com seu gabarito. E vice versa. Se você não vive igual, em uniformidade, você é punido. Se você já vive igual, você aplica a punição em quem ainda vive diferente.

Controle pela punição é um ato de violência, mas recebe um nome bonito. Você chama o controle pela punição de educação. E você não aplica a educação só na escola, aplica em todo lugar e a todo instante. Tanto que você nem consegue imaginar sociedade sem educação.

E punição não é só física, pois a natureza humana é quaternária. Então, punição pode ser física, sensorial, afetiva e racional. Punição gera má convivência porque quem é punido quer vingança. Quando o outro pune você, você quer se vingar do outro. Quando você pune o outro, ele quer se vigar de você. Jogo do controle gera mais jogo do controle.

Você também joga o jogo do controle através da ameaça. Ameaça é promessa de punição. “Se você não fizer tal coisa (viver igual eu), vou fazer aquilo (te bater, te humilhar, etc)”. Ameaça é uma estratégia de controle também. Não há punição, mas há promessa de punição. Funciona até melhor. Primeiro você pune, depois de várias punições a pessoa internaliza a punição. A partir daí, basta a promessa.

Sendo assim, fique ciente que o viver autoísta não é um mar de rosas. Os outros irão punir você de todas as formas possíveis para que você viva em uniformidade. Você vai dar liberdade para o outro viver e o outro vai te punir do mesmo jeito. Não conte que o outro vai desistir de te uniformizar. Não vai.

04) CONTROLE PELA RECOMPENSA

Escolhei o filme A Última Tentação de Cristo para ajudar no estudo do controle pela recompensa, porque esse filme pega a história mais famosa do mundo e propoe uma outra opção para o desenrolar da história. Se a história de Jesus é factual ou não, isso não importa para nós nesse estudo, o que importa nesse estudo é o simbolismo contido na história de Jesus. E qual é o simbolismo? Qual é a história por trás da história de Jesus?

A história de Jesus é uma jornada de autorrealização (realização do destino). Nessa história, a autorrealização é representada por Jesus realizando a vontade do pai. Esse é o termo cristão que se usa. E o que é realizar a vontate do pai? É realizar o próprio destino. Metafóricamente falando, o destino de Jesus era percorrer toda via sacra até a crucificação. Na crucificação, é onde se consuma a jornada de Jesus, onde se consuma seu destino, onde se consuma a vontade do pai, onde se consuma sua autorrealização.

Para evitar equívocos, mais uma vez explico que destino não é o que você faz, destino é o que você é, destino é ser. A história de Jesus é uma metáfora do processo de autorrealização do ser. Então, quando Jesus chega a crucificação, isso simboliza que Jesus viveu sendo Jesus, que viveu em acordo com sua unicidade, que viveu de forma autoísta. Essa é a moral da história. Todos os acontecimentos e toda a trajetória de Jesus são metáforas paro o entendimento da jornada de autorrealização.

Entendido isso, fica fácil de entender que a jornada de Jesus simboliza sua própria jornada de autorrealização. Ou seja, a via sacra simboliza a jornada de todos e cada um dos seres humanos. Jesus simboliza o ser humano que passa por desafios, vence e se autorrealiza. Os desafios são dois: punição e recompensa. No capítulo anterior estudamos detalhadamente o desafio da punição, nesse vamos aprofundar no entendimento da recompensa.

Na história de Jesus, houve momentos em que o desafio para que Jesus abandonasse seu destino, foi a punição, mas também houve momentos em que o desafio foi a recompensa. Como já vimos, no jogo do controle, você controla o outro e é controlado por ele, através da punição e da recompença. Por que? Porque você foge da punição para ir para recompença, que é o mesmo que buscar a recompensa para sair da punição. São dois lados da mesma moeda. No jogo do controle, o outro usa punição e recompença para fazer você sair do seu destino, e vice versa.

É isso que o filme A Última Tentação de Cristo mostra quando Jesus está na cruz e vem o anjo conversar com ele. O anjo tira a coroa de espinhos, tira os pregos, ou seja, recompensa, está tirando a dor. Daí o anjo leva Jesus para uma casa confortável, onde ele tem prazeres, alegrias. Tudo recompensa. Daí ele tem uma esposa, tem filhos, tem uma família. Tudo recompensa.

Não estou dizendo para você se negar ter prazer e alegria, pelo contrário. Mas é que a história de Jesus é metafórica, representativa. Quando Jesus aceita as recompensas, simboliza você aceitando recompensa para negar seu destino, sua unicidade. É por isso que o filme chama A Última Tentação de Cristo, porque ele aceita a recompensa para negar seu destino, ou seja, cai em tentação.

Então, Jesus sofre dois tipos de tentação. Ele é punido para não cumprir o destino dele. E ele é subornado também para não cumprir o destino dele. São dois tipos de estratégias que tem o mesmo objetivo, controlar Jesus e fazê-lo negar seu destino. E no filme, o controle através da punição não funcionou, mas o controle através da recompensa, funcionou.

O mesmo acontece com você no jogo do controle. Você também controla o outro e é controlado por ele através da punição e da recompensa, e você também cai mais em tentação através da recompensa. Isso acontece porque recompensa é bom, então, recompensa não parece estratégia de controle. Mas é. Recompensa e punição são as duas estratégias de controle.

O controle pela punição é a estratégia da educação, o controle pela recompensa é a estratégia da ratoeira. Por que ratoeira? No controle pela punição, você pune, pune, pune, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa. No controle pela recompensa, é similar, você recompensa, recompensa, recompensa, até a pessoa ficar condicionada a viver de acordo com o seu gabarito e vice versa. Por isso é ratoeira, o benefício é usado para prender.

Então, você pode até ter uma vida boa, que é o queijo da ratoeira, mas você não vive bem, pois não vive em acordo com seu destino, em acordo com seu próprio gabarito.

Para terminar, tem uma palavra que deixa a estratégia da recompensa totalmente explícita. Essa palavra vai te ajudar a perceber quando você está tentando controlar o outro através da recompensa e quando o outro está tentando controlar você. Essa palavra é: suborno.

Estratégia da recompensa é subornar.

05) JOGO DA LIBERDADE

O oposto do jogo do controle é o jogo da liberdade. E como faz para jogar o jogo da liberdade? É muito simples, basta você desistir do jogo do controle. E como desistir do jogo do controle? Da mesma maneira que você desiste de ficar de olhos fechados: percebendo que está de olhos fechados. Só quando você percebe que está de olhos fechados você é capaz de abrir os olhos, só quando você percebe que está jogando o jogo do controle você pode desistir dele. Esse estudo foi realizado para lhe ajudar a perceber quando você está jogando o jogo do controle e assim poder sair dele. Que você possa perceber melhor o jogo do controle em você, que possa sair dele, e assim conviver bem.

FIM

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