EGOGAME

O jogo da convivência

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | NÃO EXISTE VIDA, SÓ EXISTE VIVER.

Sintonize sua televisão em um canal de esportes e comece a assistir um jogo. Enquanto estiver assistindo, se pergunte: «Cadê o jogo?». Você irá perceber que não existe jogo, só existe jogar. Faça o mesmo com sua vida. Sintonize sua consciência em sua vida e comece a assistir sua vida. Enquanto estiver assistindo, se pergunte: «Cadê minha vida?». Você irá perceber que não existe vida, só existe viver.

Não é o produto que cria a fábrica, é a fábrica que cria o produto. Não é a vida que cria o viver, é o viver que cria a vida. Sem jogar não tem jogo, sem viver não tem vida. Comer é viver, respirar é viver, dormir é viver, sonhar é viver, divertir é viver, trabalhar é viver, amar é viver, odiar é viver, sentir é viver, pensar é viver. Até morrer é viver.

Você acredita que faz várias coisas, que executa diversas atividades, mas você só faz uma coisa, só executa uma única atividade: viver. O que acontece é que você é consciente do seu viver, então, enquanto executa sua única atividade, viver, você também experimenta o que está executando, por isto surge em você a ideia de que existe vida.

Vida é a suposição de que o produto existe sem a fábrica, é a crença de que sua experiência é uma criação aleatória e independente do seu viver. É justamente o contrário, o que você experimenta a cada instante é o que você cria para si a cada instante, é efeito do seu viver.


02 | VIVER É CONVIVER.

Procure algum instante em seu viver que não seja convivência. Consegue encontrar algum? Vamos procurar juntos.

Subir é viver e subir é você convivendo com a escada. Dirigir é viver e dirigir é você convivendo com o carro. Respirar é viver e respirar é você convivendo com o ar. Comer é viver e comer é você convivendo com a comida. Pensar é viver e pensar é você convivendo com os pensamentos. Sentir é viver e sentir é você convivendo com as emoções. Trabalhar é viver e trabalhar é você convivendo com o cliente. Namorar é viver e namorar é você convivendo com o namorado. Conversar é viver e conversar é você convivendo com o interlocutor. Guerrear é viver e guerrear é você convivendo com o inimigo.

Percebe como funciona a experiência humana? Percebe a interdependência do seu viver? A única coisa que você faz é viver, mas viver é conviver. Por isso que você não consegue encontrar nenhum instante em seu viver que não seja convivência. Você não vive, você convive. Retire o outro do seu viver, que viver sobra para você viver? Nenhum. Viver é você, um, convivendo com o outro um.


03 | CONVIVER É OPTAR ENTRE DUAS FORMAS DE CONVIVÊNCIA.

Viver é conviver e conviver é sua constante interação com o outro. Por isso não tem para onde você fugir. Seja para onde você for, perto ou longe, você estará convivendo com o outro. Esteja você no ambiente em que estiver, sólido, líquido ou gasoso, você estará convivendo com o outro. Seja quando for, você estará convivendo com o outro. Até para se isolar você precisa estar convivendo com o outro, senão, você vai se isolar de quem?

É simples perceber que viver é conviver e que conviver é inevitável. O que talvez você nunca tenha considerado é que sua convivência com o outro não se trata apenas de convivência com o outro, mas de uma convivência humana com o outro. Você convive com o outro através da sua humanidade. E conviver com o outro através da sua humanidade, entre outras coisas, implica que a cada instante você está optando e re-optando entre duas formas humanas de convivência.

Sim, apenas duas. Você se vê interagindo de múltiplas formas, mas se você observar atentamente perceberá que todas as múltiplas formas de convivência se resumem a apenas dois tipos. A seguir veremos quais são essas duas únicas possibilidades de convivência.


04 |  VOCÊ PODE VIVER DE FORMA AUTOÍSTA OU OUTROÍSTA.

Você pode viver sua experiência humana de uma forma autoísta ou outroísta.

Viver autoísta é conviver em universalidade (cada um do seu jeito). Viver autoísta é jogar e deixar jogar, é você se permitindo ser você, único, diferente do outro e dando liberdade ao outro de ser o outro, único, diferente de você.

Viver outroísta é conviver em uniformidade (todos do mesmo jeito). Viver outroísta é não jogar nem deixar jogar. É você se proibindo de ser você, único, diferente do outro e proibindo o outro de ser o outro, único, diferente de você.

Autoísmo e outroísmo são as duas possibilidades de convivência na experiência humana. Mas atenção! Autoísmo e outroísmo não é comportamento. A opção entre autoísmo ou outroísmo é seu arbítrio, é a causa do seu comportamento. Seu comportamento é causado pelo seu arbítrio. Seu comportamento é efeito.

Esse entendimento é fundamental para você não cair no equívoco de buscar bem viver do efeito para causa, da experiência para opção. Viver é optar. Comportamento é efeito. Bem viver e mal viver é você experimentando o resultado do seu arbítrio.


05 | SEU TIPO DE VIVER CORRESPONDE AO SEU TIPO DE ARBÍTRIO.

Imagine que você plante abóbora e brote feijão. Imagine que você aperte play em um MP3 dos Beatles e toque Elvis Presley. Imagine que você beba água e sua sede aumente. Qual é a lógica de ser livre para optar quando o resultado é aleatório?

Livre arbítrio só é possível com pré-programação. Pré-programação é correspondência. Quando o resultado de uma opção não é pré-programado, não há como brincar de escolher, pois não há correspondência a ser escolhida.

Imagine seu viver como sendo o restaurante da convivência humana. Você é o freguês que está constantemente escolhendo entre conviver de uma forma outroísta ou autoísta. Para cada escolha há um resultado pré-programado (correspondente) na qualidade da sua convivência.

Convivência outroísta resulta em má convivência (mal viver).
Convivência autoísta resulta em boa convivência (bem viver).

Sendo assim, sempre assim, invariavelmente assim, se a refeição que você está comendo é mal viver e você deseja bem viver, basta mudar de opção. Você é o freguês, livre para optar, e o restaurante humano tem apenas uma função: servi-lo.


06 | OUTROÍSMO RESULTA EM MAL VIVER.

Autoísmo é você fazendo três coisas simples e na qual você tem absoluta competência para fazer: saber de si, querer por si e optar para si.

Outroísmo é você tentando fazer três coisas impossíveis e para as quais você é absolutamente incompetente: saber pelo outro, querer pelo outro e optar pelo outro.

Mal viver e bem viver não é castigo nem premiação, é apenas a inevitável consequência que você experimenta por estar optando por uma forma eficiente ou ineficiente de convivência.

O resultado de você optar por uma forma eficiente de convivência é experimentar uma forma eficiente de convivência (bem viver). O resultado de você optar por uma forma ineficiente de convivência é experimentar uma forma ineficiente de convivência (mal viver).

Você é incapaz de viver pelo outro, porque você não é o outro. O outro é incapaz de viver por você, porque o outro não é você.

É impossível você viver pelo outro.
É impossível outro viver por você.

Outroísmo é irrealizável. O resultado de você tentar realizar o irrealizável, por mais que se esforce, é inevitável fracasso, ineficiência, mal viver.


07 | DESISTA

Absolutamente nada lhe obriga a viver de forma outroísta, é opção sua. Então, você vive mal por livre e espontânea opção.

Este é o motivo pelo qual nada e ninguém é capaz de ajudá-lo a viver bem: você mesmo não se permite. Você é livre para optar pelo outroísmo e não tem poder no universo capaz de mudar de opção por você. O único poder capaz de mudar de opção por você é seu arbítrio.

Seu arbítrio é soberano e incorruptível. Isto é ótimo, pois se é pela porta do arbítrio que você entra no mal viver, é pela mesma porta que você sai. E para sair, basta você desistir da missão impossível.

Viver outroísta é como um pesadelo, não importa o que você faça dentro de um pesadelo, não importa o tanto que tente vencer os monstros, tudo que você consegue é perpetuar o pesadelo. A solução para você sair de um pesadelo é você desistir de sonhá-lo.

A solução para você sair do mal viver é você desistir do outroísmo. A melhor maneira de resolver um problema é não criar o problema. Quando você opta por um viver outroísta você está criando o mal viver que depois tenta resolver.

Você é a causa do seu mal viver. Por isso, para você dar um game over no seu mal viver, só tem uma solução, desistir do viver outroísta e optar pelo viver autoísta.


08 | OUTROISMO É ESTRATÉGIA

Você nunca, jamais, em momento algum, conseguirá desistir do seu outroísmo, sem antes perceber que outroísmo é estratégia e não objetivo. Você acredita que seu outroísmo é seu objetivo e por isso você não consegue se desligar do objeto, ou seja, do outro.

Objetivo é desejo, é vontade, é fome. Você nunca, jamais, em momento algum conseguirá desistir da sua fome, da sua vontade, do seu desejo. É impossível. Até seu desejo de se libertar do desejo é você tentando realizar seu desejo.

Você tem quatro desejos, quatro objetivos: certificar, valorizar, gostar e ganhar. Você nunca, jamais, em momento algum conseguirá desistir de realizar esses quatro objetivos. O que você pode fazer é desistir de realizá-los através de uma estratégia outroísta e passar a realizá-los através de uma estratégia autoísta. Ou seja, você pode desistir de responsabilizar o outro pela realização dos seus quatro objetivos e assumir a responsabilidade.


09 | PRATIQUE EGOFONIA

Uma maneira simples, divertida e eficiente de você identificar seu desejo é praticando Egofonia. O que é Egofonia? Egofonia é ego-telefonia, é usar seu racional como telefone, mediador, tradutor do irracional. Como se pratica Egofonia? É simples! Basta você conversar com seu sofrimento em português. Isto mesmo! Seu sofrimento não fala português (idioma racional), seu sofrimento fala emoção (idioma irracional). Eis o motivo do desentendimento: você e seu sofrimento não falam a mesma língua. A solução é você convidar seu sofrimento para conversar em português.

Quando você diz, “estou com raiva”, por exemplo, você está fazendo Egofonia. Você usa a palavra raiva porque é a tradução racional da emoção irracional que você está sentindo. Ou seja, você já faz Egofonia o tempo todo, sua natureza humana é egofônica, idiomática, racional, só que você não aprofunda na conversa racional com seu irracional. Você fica só na superfície. Por isso não consegue restaurar seu bem viver. Para restaurá-lo, aprofunde na conversa com seu sofrimento até identificar o objetivo por trás da sua estratégia outroísta. Uma vez descoberto seu desejo, pronto! Naturalmente você desiste da estratégia outroísta.


10 | O SENTIDO DO SEU VIVER É AUTOREALIZAÇÃO.

O sentido do viver de todo ser é autorealização. Você é um ser humano, então, o sentido do seu viver é autorealização humana. Sua humanidade é quaternária, então, o sentido do seu viver é quaternário também:

Autorealização racional (autoconfiança)
Autorealização afetiva (autoestima)
Autorealização sensorial (autocontrole)
Autorealização física (autoaptidão).

Todo ser humano vive esses mesmos quatro desafios e só estes quatro. Só que cada ser humano vive esses quatro desafios de forma única, ímpar, diferente.
Quando você está jogando um jogo coletivo, você está igualmente jogando o mesmo jogo que todos e particularmente jogando seu próprio jogo. O mesmo se dá com seu viver humano. Você e o outro estão vivendo a mesma humanidade, mas cada um está vivendo seu próprio viver da mesma humanidade.

É por isso que você é incompetente em viver pelo outro e o outro é incompetente em viver por você. Mantenha-se ciente da sua competência e da sua incompetência e dê um game over no mal viver.

© 2017 · 1FICINA · Marcelo Ferrari