DUAS PERGUNTAS

Para boa convivência

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

00 | PREFÁCIO

Já tive que explicar tantas vezes sobre as duas perguntas que me convenci que ninguém ainda se deu conta delas e muito menos das implicações de não se dar conta. Se suas relações, seja com marido, esposa, mãe, pai, filho, irmão, patrão, amigo, colega, etc, estão um inferno, é porque você ainda não se fez as duas perguntas. Não são perguntas geniais, pelo contrário, são óbvias, porém, uma vez que você as fizer a si mesmo e ao outro, estará se convidando e convidando o outro a tomar consciência de dois fatos fundamentais da experiência humana.

E quais são as duas perguntas?
Descubra a seguir.


01 | PRIMEIRA PERGUNTA

Você lê pensamento?

Cristina estaciona o carro. Descemos e começamos a caminhar pelo parque. Há dois meses estou adiando o início do namoro. Nosso afeto é mútuo e agora chegou a hora de conversar.

— Antes de começarmos, Cristina, quero te fazer duas perguntas e conversar sobre elas. São perguntas que podem evitar grande parte dos problemas que ocorrem nos relacionamentos, não apenas entre homens e mulheres, mas em geral. São perguntas que você deve fazer para mim, sempre que me esquecer delas, e que vou fazer para você, sempre que você se esquecer. Mas principalmente, são perguntas que devemos fazer a nós mesmos, sempre que possível.
— Pode perguntar o que você quiser.
— Você lê pensamento?
— Como?!!!
— Você lê pensamento, Cristina?
— Não!
— Nem eu! Sabe o que isto significa?
— Que somos humanos? — ela disse.
— Isto! Só que tem outras implicações por trás desta impossibilidade.
— Que tipo de implicações?
— Você sabe o que estou pensando agora?
— Em sexo?
— Aqui no parque, não.
— Então, não sei.
— Mas estou pensando agora.
— Eu não leio pensamento.
— Quer saber?
— Sim.
— Então, entra na minha cabeça.
— Como?
— Como você pode entrar na minha cabeça, no meu pensamento, no meu mundo interno? Qual é a porta?
— Não sei.
— O que você pode fazer para saber o que estou pensando agora?
— Posso te perguntar.
— Experimenta para ver se funciona.
— No que você está pensando?
— Água de coco.

Vamos até uma barraca e compramos dois cocos verdes.
— Vou sempre perguntar o que você pensa, sente, deseja, teme, acredita, etc. Senão, ao invés de me relacionar com você, vou estar me relacionando comigo mesmo, com minhas suposições sobre você.
— Não entendi.
— Por exemplo, pelo que pude observar, suponho que você gosta de andar de mãos dadas comigo. Posso supor muitas outras coisas, mas não significa que minhas suposições são realmente o que você pensa, sente, deseja, teme, acredita, etc.
— Concordo. Você não tem como adivinhar o que se passa comigo a não ser que eu lhe conte. Não posso adivinhar sobre você, tanto que errei na água de coco.
— Muitas brigas de relacionamento acontecem porque os briguentos supõem coisas um ao outro e depois discordam um do outro. Mas o outro nunca concordou, era tudo suposição.
— Por que fazemos isso?
— Você vai descobrir porque na segunda pergunta. Antes disto, vamos refletir sobre o desejo, que é o ponto onde a suposição é mais falha.
— Vamos lá!
— Vamos supor que você não goste de algo que faço. Por exemplo, vamos supor que você não goste que te chame de “Cris”. Você não gosta mesmo. Só que eu não sei disto. Aliás, acredito que você goste. Então, se não te perguntar sobre seu gosto e desejo, e se você deseja que eu te chame de “Cristina”, o que você pode fazer?
— Devo te fazer a primeira pergunta?
— Isto mesmo! Só que não para mim, mas perguntar para si mesma.
— Como assim?
— Converse com você mesma assim: “Eu leio pensamento? Não. Ele lê pensamento? Não. Então, por que estou querendo que ele adivinhe meu desejo?”. Isto fará você lembrar que para o outro tomar consciência do seu desejo é preciso que…
— Eu conte meu desejo ao outro!
— Isto! Ninguém é adivinho, e consciência é particular. Então, se você não faz sua parte que é expressar seu desejo, não tem como o outro satisfazer um desejo que desconhece.
— Entendi.
— Parece besteira, mas esta simples reflexão evita milhares de problemas de relacionamento. Imagine se todos os pais do mundo se dessem ao luxo de perguntarem aos seus filhos o que eles desejam e gostam. Esta simples abertura ao diálogo já evitaria muito equívoco, briga, rancor, raiva e suicídio.
— É verdade.
— Então, sempre que você estiver brava, chateada, decepcionada porque não estou adivinhando seu desejo, vou te fazer a pergunta: “Você lê pensamento?”. Depois vou te dizer: “Nem eu!”. Não vou fazer isso para te irritar mais, vou fazer isso para você perceber que a origem do seu sofrimento está em você, na sua suposição de que tenho uma habilidade que não tenho: ler pensamentos e adivinhar desejos.
— Se não te conto, você não adivinha.
— Isto! Por isto pretendo sempre te contar o que quero e não quero, o que espero e não espero. Se você fizer o mesmo comigo, no mínimo, vamos ter um relacionamento verdadeiro. O resto resolveremos com a prática da segunda pergunta.
— Gostei. Vamos praticar sim. Qual é a segunda pergunta?


02 | SEGUNDA PERGUNTA

Você é livre?

Convido Cristina para irmos ao playground. Crianças correm por todos os lados, balançam e descem pelo escorregador. Nos aproximamos da gangorra. Sento de um lado, Cristina senta do outro, e com a diferença de peso, Cristina sobe aos céus e eu desço ao chão.

— Cristina, por que você subiu e eu desci?
— Você é mais pesado do que eu.
— O que é nosso peso?
— São características do nosso corpo.
— Você consegue mudar meu peso?
— Não.
— Você consegue mudar seu peso?
— Também não.
— Nem eu!
— Esta é a segunda pergunta?
— É metade, é um pedaço. A segunda pergunta é: Você é livre?
— Sou!
— Você é livre para mudar seu peso?
— Neste caso, não.
— Você é livre pra mudar meu peso?
— Neste caso, também não.
— Então, o que está te segurando ai?
— Nossas características individuais.
— Nossa relação não depende só do nosso desejo, depende de nossas características individuais. Por mais que eu queira subir e você descer, não adianta, nossas características individuais não permitem.
— Então, não somos livres?
— Em relação às nossas características individuais, não. Esta liberdade não temos.
— Então, a segunda pergunta é para tomarmos consciência que não podemos mudar nossas características individuais, nem as consequências delas nos relacionamentos?
— Isto! A experiência humana é um brinquedo e quem determina grande parte do nosso funcionamento dentro do brinquedo é a natureza do brinquedo e nossas características individuais.
— Entendi. Mas em que entender isso ajuda nos relacionamentos?
— Por exemplo, você é mulher e eu sou homem, não é?
— Sim, temos características físicas e psicológicas distintas, é isso?
— Exato! E se esqueço que você não é livre para mudar suas características individuais e desejo que mude, o que acontece?
— Você vai ficar frustrado.
— Muito pior! Vou fazer da sua vida um inferno até que você se transforme no meu ideal. E vou fazer um inferno da minha vida também, porque tentar realizar o impossível só gera estresse.
— Daí eu te faço a pergunta?
— Sim, por favor, senão só vamos alimentar estresse desnecessário. Quando eu me esquecer, você me lembra, quando você se esquecer, eu te lembro.
— Combinado. Mas você disse que isto era só metade da segunda pergunta.
— Isto mesmo!
— Qual é a outra metade?
— Você quer descer na gangorra?
— Sim.
— Problema seu!
— Sem graça!
— Lembra que você me perguntou porque não fazemos a primeira pergunta? O motivo é que não temos maturidade para ouvir a resposta, então, não fazemos a pergunta.
— Como assim?
— Você tem obrigação de realizar meu desejo?
— Não! Obrigação eu não tenho.
— Nem eu tenho obrigação de realizar o seu. Por isto disse “problema seu”. Seu desejo de descer na gangorra é seu, não é meu, logo, o proplema é seu.
— Mas se você não colaborar com meu desejo, como vou descer?
— Usando sua liberdade de realizar seu desejo. Sua liberdade é sua. Minha liberdade é minha. Você é livre. Eu também.
— Mas tenho que aceitar sua liberdade de não colaborar comigo?
— Não. Você não “tem que” aceitar minha liberdade, você é livre para aceitar ou não. Mas se minha liberdade é minha, o que mais você pode fazer?
— Posso me mover na gangorra e alterar nosso equilíbrio.
— Ótimo! Isso é você usando sua liberdade de realizar seu desejo, não é?
— Sim, mas e se não funcionar, é justo meu desejo perder do seu?
— Mesmo quando não funciona, você continua tendo liberdade de tentar outra opção, e outra, e outra. Sua liberdade só acaba quando você deixa de usá-la.
— Minha liberdade nunca acaba?!!
— Nunca, apenas fica guardada na gaveta feito uma ferramenta, esperando você voltar a usá-la. Esperando você tentar outra vez.
— Sensacional!
— Sensacional mesmo! Mas ainda não acabou. Tem um outro aspecto na brincadeira da liberdade coletiva que é fundamental.
— Qual é?
— Dizer não é dizer sim.
— Como assim?
— Quando lhe digo “não”, não estou indo contra a realização do seu desejo, estou indo a favor da realização do meu. Meu desejo não é ganhar do seu desejo, meu desejo é realizar o meu desejo. Dizer não é dizer sim (para mim).

Dou um impulso alterando o equilíbrio da gangorra. Meu lado sobe e o lado de Cristina desce. Vice-versa. Versa-vice. E assim por diante. Ficamos brincando de liberdade coletiva.

— A pergunta “Você é livre?” tem dois propósitos, — Cristina diz — um é nos fazer lembrar de uma liberdade que não temos, mas acreditamos ter, outro é nos fazer lembrar de uma liberdade que temos, mas esquecemos que temos?
— Isso mesmo!
— Acabaram-se as perguntas?
— Tem mais uma.
— Pode fazer.
— Quer brincar de liberdade coletiva comigo?
— Sim!
— Eu também.

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