DEMOCRACIA

O jogo da liberdade

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

00 | NÃO EXISTE INDEPENDÊNCIA

Você usa a palavra independência para expressar liberdade, mas não existe independência, o que existe é autonomia. Você confunde independência com autonomia. Quando você diz “Sou uma pessoa independente” o que você está querendo dizer é “Sou um indivíduo com autonomia”.

Independência é a suposição de uma parte separada do todo, uma parte que não participa do todo. Isso é um equívoco, pois uma parte só é uma parte porque participa do todo. Parte é pedaço do todo. Então, se é parte, não está separado do todo, não é independente do todo, participa do todo.

Confusão desfeita, vamos definir autonomia. O que é autonomia?

Autonomia é a liberdade particular de gerir a própria experiência através do arbítrio.

Agora já dá para entender a diferença entre independência e autonomia. Independência é o equívoco de que você, indivíduo, está separado do todo. Autonomia significa que você é parte do todo, mas é uma parte que tem liberdade de gerir a própria experiência através do arbítrio.

Não existe independência, o que existe é autonomia e interdependência. E o que é interdependência? Interdependência é o estado de convivência onde todas as partes interferem em todas as partes através do arbítrio. Em outras palavras, interdependência é o estado de convivência onde você interfere nos outros e os outros interferem em você através do arbítrio.

Você é um ser. Os outros são todos os seres que convivem com você. Todos significa sem exceção. Então, a interferência dos outros em você não se restringe apenas a interferência dos outros seres humanos, mas de todos os seres do universo.

Por exemplo, você está respirando o oxigênio que veio da fotossíntese das plantas. As plantas e o oxigênio estão interferindo em você. Você inspira o oxigênio e exala gás carbônico, que volta para as plantas e interfere nas plantas. Outro exemplo é a internet. Você está usando a internet agora porque outros seres estão interferindo e possibilitando isso. São os funcionários das empresas de telecomunicações que estão fazendo a internet funcionar.

Claro que você não percebe que está em constante interdependência com todos os seres do universo. Mas você está. Agora e sempre. Todos os seres do universo estão interferindo em você e você está interferindo em todos os seres do universo. Entende o que isso significa? Sua mudança muda o universo inteiro. Quando você muda de opção, quando você opta pelo viver autoísta, por exemplo, você não está apenas se mudando, você está mudando todo o universo. Não tem como ser diferente, sendo que você é uma parte do todo.

Entendido isso, já dá para entender e definir democracia.

Sua realidade é produto do seu arbítrio. Só que você não cria sua realidade isoladamente, de forma independente, você cria sua realidade em estado de interdependência. Então, sua realidade não é produto só do seu arbítrio, mas do arbítrio coletivo. Eis o que é democracia:

Democracia é arbítrio coletivo.

O diálogo a seguir é para aprofundar nesse entendimento.

01 | PRIMEIRA PARTE DO DIÁLOGO

INTERLOCUTOR: Por que você iguala bem viver com realização de desejos.

— Não faço isso. Você está me interpretando mal.

INTERLOCUTOR: Pode esclarecer esse ponto?

Sim, o que explico é que para você viver bem você deve viver EM acordo com seu desejo. Logo, quando você está vivendo mal, você está vivendo SEM acordo com seu desejo. Outra coisa é que seu desejo é um só, constante e inalterável. Então, para você entender a explicação sobre viver EM acordo com o desejo, primeiro você deve entender que desejo constante e inalterável é esse.

INTERLOCUTOR: Que desejo é esse?

— Você deseja ser você.

INTERLOCUTOR: Como posso desejar ser o que sou?

— É ai que entra o “sendo”. Você é você, porém, você pode viver não sendo o que é.

INTERLOCUTOR: Sofrimento é quando vivo não sendo eu?

— Exato! Quando você está vivendo SEM acordo com você, você precisa experimentar algo que lhe indique isso para que você possa ficar consciente disso. Esse algo são as emoções desagradáveis, popularmente chamadas de sofrimento.

INTERLOCUTOR: Eu vivo não sendo eu quando estou em desacordo com meu desejo. É isso?

— Sim, pois seu desejo é ser você. Você quer viver sendo você.

INTERLOCUTOR: Quero trabalhar menos, quero publicar um livro, quero isso, quero aquilo, etc. São muitos desejos, mas meu objetivo é sempre o mesmo: satisfação. Só que satisfação acaba, volto a ficar insatisfeito, e daí volto a viver mal.

— Viver EM acordo com o desejo não exclui satisfazer o desejo, porém, também não é o mesmo que satisfazer o desejo. Você continua interpretando mal a explicação.

INTERLOCUTOR: Qual é a diferença entre viver em acordo com o desejo e satisfazer o desejo?

— Primeiro vamos esclarecer algo que está implícito no que você disse aqui: “Meu objetivo é sempre o mesmo: satisfação”. Eu te pergunto: Por que você quer satisfação?

INTERLOCUTOR: Quero satisfação porque satisfação é agradável.

— Sendo que agradável = bom. Então, você quer bom. Agora já dá para responder sua pergunta. Viver EM acordo com o desejo = você vivendo EM acordo com o que é BOM para você. Satisfazer o desejo = você tendo uma experiência desejada. Ou seja, quando você está vivendo EM acordo com o que é BOM para você, esse viver é um VIVER BOM para você. Você está vivendo BEM. Quando você está vivendo SEM acordo com o que é BOM para você, esse viver é um VIVER RUIM para você. Você está vivendo MAL.

INTERLOCUTOR: Mas o bom não está sempre presente!

— Exato! Mesmo você vivendo EM acordo com o que é bom para você, muitas e muitas vezes sua experiência será ruim, desagradável, indesejada.

INTERLOCUTOR: Experiência ruim sou eu vivendo SEM acordo com meu desejo? É isso?

— Não necessariamente. Experiência é circunstancial. Circunstância é desdobramento da democracia. Uma experiência que você qualifica de ruim está circunstancialmente SEM acordo com seu desejo, por isso que você a qualifica de ruim, mas seu viver não necessariamente está SEM acordo. Viver EM ou SEM acordo com o que é bom para você, é opção sua, independe das circunstâncias. As circunstâncias lhe influenciam, em maior ou menor grau, mas não determinam. Influenciar não é optar.

INTERLOCUTOR: Estou num ponto de ônibus aguardando o ônibus que está atrasado. Esse atraso tem como consequência a perda de um compromisso importante. Estou vivendo em acordo com meu desejo. Finalmente surge o ônibus. Faço sinal. Mas o motorista não para. E ainda passa numa poça e joga água em mim. Fico molhado e sujo de barro. Nessa circunstância, há possibilidade de eu viver EM acordo com o que é bom para mim?

— Tanto nessa circunstância como em qualquer circunstância. Viver EM ou SEM acordo com o que é bom para você, só depende de você optar.

INTERLOCUTOR: Como optar viver SEM acordo se minha opção é sempre pelo que é bom?

— Bem observado! O que acontece é que você não opta pelo que é bom, mas pelo que SUPÕE que é bom. OPTAR ANTECEDE O EXPERIMENTAR. Quando você opta, você ainda não está experimentando, você está SUPONDO. Você pode se equivocar em sua suposição.

INTERLOCUTOR: Eu escolho ir ao compromisso porque é bom. Vou para o ponto de ônibus e não acontece o que é bom. Sendo assim, o compromisso não é bom? É isso?

— Se você considera que “ir ao compromisso” é bom, então, ir ao compromisso = bom, independente de você conseguir ir ao compromisso ou não. Sua consideração é sua. Sua opção por viver EM ou SEM acordo com o que é bom para você, também é sua, independe das circunstâncias. Mas as circunstâncias não se desdobram apenas da sua opção. Cada circunstância é um desdobramento da democracia.

INTERLOCUTOR: Então, mesmo que eu esteja vivendo EM acordo com meu desejo, mesmo que minha suposição de bom esteja correta, ainda assim, as circunstâncias podem surgir e me dizer: “Você vai perder o ônibus, vai ficar sujo de lama e não vai chegar a tempo no compromisso”? Ou seja, o fato de eu viver em acordo com meu desejo não garante a realização dele?

— Exatamente! É isso mesmo!

02 | SEGUNDA PARTE DO DIÁLOGO

INTERLOCUTOR: Como o sofrimento surge mesmo quando opto por viver EM acordo com o que é bom para mim?

— Para esclarecer isso é preciso fazer um aprofundamento, pois com a entrada das circunstâncias na conversa, pulamos do VIVER bem para o CONVIVER bem.

(01) Você fica desagradado quando a democracia lhe desfavorece. Ou seja, você experimenta emoções desagradáveis. Você sente raiva, por exemplo. Experimentar emoções desagradáveis é inevitável e fundamental para você viver consciente. Você experimenta emoções desagradáveis para entender que aquela circunstância não é boa para você.

(02) Você experimentando emoções desagradáveis = você sofrendo.

(03) Você tem duas opções de JEITO de viver:

VIVER AUTOÍSTA – JOGO DA LIBERDADE – Você pode, baseado na informação que o sofrimento está lhe fornecendo, INFLUIR nas circunstâncias A FAVOR do que é bom para você.

VIVER OUTROÍSTA – JOGO DO CONTROLE – Você pode, baseado na informação que o sofrimento está lhe fornecendo, TENTAR PROIBIR a democracia.

(04) Quando você opta pelo VIVER OUTROÍSTA você não está mais vivendo EM acordo com o que é bom para você, está vivendo na proibição da democracia. Você ainda quer o que é bom para você, mas você não está de fato EXECUTANDO um viver EM acordo com o que é bom para você, você está executando a tentativa de PROIBIR a democracia.

(05) Democracia é a natureza da convivência. Logo, o VIVER OUTROÍSTA é irrealizável.

(06) Sendo irrealizável, quanto mais você persiste no VIVER OUTROÍSTA, mais você continua vivendo SEM acordo com você.

(07) Quanto mais você continua vivendo SEM acordo com você, mais você está perpetuando seu sofrimento.

(08) Ou seja: optar pelo VIVER OUTROÍSTA é você se condenando ao sofrimento.

(09) Mas até mesmo essa auto-condenação é positiva, pois serve de lição para você entender que para viver bem você deve abandonar o VIVER OUTROÍSTA.

INTERLOCUTOR: Mas se estou vivendo EM acordo comigo e agindo EM acordo comigo, como é que experimento sofrimento?

— Por causa da democracia.

INTERLOCUTOR: Você disse que a democracia é a natureza da convivência. Como assim?

— Exatamente assim como é. O que você chama de “circunstância” é democracia em curso.

INTERLOCUTOR: Como faço para me manter vivendo EM acordo com meu desejo quando o resultado democrático é diferente dele?

— Se mantendo no VIVER AUTOÍSTA.

INTERLOCUTOR: Por que ao optar pelo VIVER OUTROÍSTA não estou executando o que é bom para mim?

— Porque ao tentar proibir a democracia você passa a viver a tentativa de proibição da democracia ao invés de viver a realização do que é bom para você.

INTERLOCUTOR: Mesmo optando pelo VIVER AUTOÍSTA, ainda assim pode acontecer do resultado democrático não estar EM acordo com o que é bom para mim e gerar sofrimento. Portanto, quer opte pelo VIVER OUTROÍSTA ou VIVER AUTOÍSTA, em ambos os casos posso sofrer, pois sempre pode ocorrer eventos sem acordo com o que é bom para mim. Então, qual é a diferença entre optar pelo VIVER OUTROÍSTA ou VIVER AUTOÍSTA?

— A diferença é que no VIVER AUTOÍSTA você usa sua criatividade para conceber e executar estratégias que possam resultar no que é bom para você. No VIVER OUTROÍSTA você usa essa mesma criatividade na tentativa de proibir a democracia. Como proibir a democracia é irrealizável, você só consegue fracassar e continuar sofrendo.

INTERLOCUTOR: Por que o VIVER AUTOÍSTA é viver bem? E por que o VIVER OUTROÍSTA é viver mal?

— No VIVER AUTOÍSTA você vive bem porque você CONVIVE BEM com a democracia. No VIVER OUTROÍSTA você vive mal porque você CONVIVE MAL com a democracia.

INTERLOCUTOR: Por favor, me diga sua definição de democracia.

— Democracia é a liberdade de escolha dos integrantes do universo.

INTERLOCUTOR: Essa liberdade de escolha pode ser perdida de alguma forma?

— Não! Nem perdida nem adquirida.

03 | TERCEIRA PARTE DO DIÁLOGO

INTERLOCUTOR: Quando opto pelo viver outroísta e consigo o que quero, posso ter a impressão, mesmo que equivocada, de que outroísmo é bem viver?

— Sim, claro! Esse é o grande equívoco e o grande desafio do outroísmo impositivo. Você persiste no outroísmo impositivo porque acredita que o Jogo do Controle é o melhor jeito de viver. Você acredita que controlar o outro é o apogeu da liberdade. É impossível controlar o arbítrio do outro, mas como o outro se submete ao seu controle, você tem a ilusão de que o impossível é possível. Por isso o outroísmo impositivo fica parecendo o apogeu da liberdade. Não é! Outroísmo impositivo é uma cadeia assim como o outroísmo submisso. Mas perceber que o outroísmo submisso é uma prisão é fácil, difícil é perceber a ratoeira do outroísmo impositivo.

INTERLOCUTOR: É possível viver de forma autoísta e ainda assim não conseguir o que se quer?

— Sim, claro! Aliás, para você conseguir o que quer, você deve jogar o Jogo do Controle (outroísmo) e não o Jogo da Liberdade. O Jogo da Liberdade (autoísmo) vai dificultar você conseguir o que quer. Jogo da Liberdade não é para você conseguir o que quer, é para você viver e conviver bem. O que não exclui você conseguir o que quer.

INTERLOCUTOR: Então, mesmo que eu viva autoísta em plenitude, o que significa viver EM acordo com meu desejo, ainda assim posso passar a vida toda não conseguindo o que quero e ainda assim viver bem?

— Sim, correto.

INTERLOCUTOR: Nos seus termos, o que é satisfação e felicidade?

— Felicidade = Satisfação = Você experimentando emoções agradáveis.
— Sofrimento = Insatisfação = Você experimentando emoções desagradáveis.
— Viver bem é diferente de felicidade.

INTERLOCUTOR: Qual a relação da felicidade com viver bem?

— Viver BEM é lidar BEM com o sofrimento e a felicidade.
— Viver MAL é lidar MAL com o sofrimento e a felicidade.

INTERLOCUTOR: Agora entendi porque você afirma que é impossível viver sem sofrimento. Para você sofrimento é sinônimo de insatisfação. Nesse caso, de fato é impossível viver sem sofrimento. Para continuar preciso entender o seguinte: O sofrimento só acontece quando estou vivendo mal?

— Não! Devido a democracia, sofrimento também acontece quando você está vivendo bem. Mas quando você lida mal com o sofrimento, você mesmo se condena a perpetuá-lo. Quando você lida bem com o sofrimento, você se destina a resolvê-lo.

INTERLOCUTOR: Então, a origem do sofrimento não é viver mal?

— Seu sofrimento pode ter duas origens. Ou você está equivocado no que supõe que seja bom para você. Ou você está correto, mas a democracia está contra seu desejo.

INTERLOCUTOR: Não posso fazer o que quero sem tentar proibir a democracia, mas se não tento proibir a democracia, a democracia me impede de fazer o que quero. Sendo assim, viver bem é impossível.

— Realizar o que se quer é diferente de viver EM acordo com o que se quer. Você voltou na má interpretação. Nada pode lhe impedir de viver EM acordo com seu desejo. É uma opção. É uma escolha. É você exercendo sua participação na democracia. Só você pode se impedir disso. Assim como é impossível você impedir a liberdade de escolha dos integrantes do universo, também é impossível os integrantes do universo impedirem sua liberdade de escolha. Logo, os integrantes do universo, por democracia, podem sim lhe impedir de realizar o que você quer, mas NUNCA, JAMAIS, EM CIRCUNSTÂNCIA ALGUMA, podem lhe impedir de viver EM acordo com o que você quer, também por democracia.

INTERLOCUTOR: Estou vivendo em acordo com o que quero, e portanto opto por realizar algo. Se eu faço e tenho o resultado que quero, então, estou satisfeito e feliz. Se os integrantes do universo, por democracia, me impede de realizar o que quero, então, fico insatisfeito e sofro. Isso indica que os integrantes do universo, por democracia, estão tentando me impedir de viver em acordo com o que quero. Mas como proibir a democracia é jogar o Jogo do Controle, o que me leva a viver mal, opto por realizar outra coisa que esteja em acordo com o que quero, e que não seja proibir a democracia. Se a nova opção tem o resultado que quero, então, estou satisfeito e feliz. Se os integrantes do universo, por democracia, atuam novamente me impedindo de realizar o que quero, opto novamente por outra coisa em acordo com o que quero, e por aí vai. É isso que você chama de viver bem e de lidar bem com o sofrimento e a felicidade?

— Sim, mas quando você diz: “Isso indica que os integrantes do universo estão tentando me impedir”. Aí tem um equívoco. Não indica isso. Indica apenas que a opção dos integrantes do universo é DIFERENTE da sua. Os integrantes do universo não estão necessariamente optando por ir contra seu desejo, não estão necessariamente tentando lhe impedir de viver em acordo com o que você quer, eles podem estar apenas optando a favor do desejo deles, assim como você. Então, a indicação é de que seu desejo é DIFERENTE do desejo coletivo.

INTERLOCUTOR: Entendi. Agradeço as respostas.

— Agradeço as perguntas.

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