CONVERSANDO COM A PERFEIÇÃO

Como funciona o universo

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

PERFEIÇÃO: Olá! Eu sou a perfeição. Vamos conversar? Pode me perguntar o que quiser.

INTERLOCUTOR: Perfeição, será que algum um dia esse mundo será perfeito?

PERFEIÇÃO: Por que você diz que não é perfeito?

INTERLOCUTOR: Por tudo que acontece nele, por exemplo, os países que estão em guerra, eram todos lugares muito bonitos e agora estão devastados, muitas pessoas morreram, crianças inclusíve. Pessoas tiveram que sair do seu país para escapar da guerra. Você não acha que o mundo seria perfeito sem guerra?

PERFEIÇÃO: Vou te contar uma coisa sobre mim. Talvez demore um pouco para você entender, mas vamos conversando e você irá entendendo.

INTERLOCUTOR: Sim, diga.

PERFEIÇÃO: Tudo é perfeição.

INTERLOCUTOR: Como assim? Crianças morrendo, tudo explodindo, isso é perfeição?

PERFEIÇÃO: Sim, isso é perfeitamente isso!

INTERLOCUTOR: Mas é perfeição isso?

PERFEIÇÃO: Por que não seria?

INTERLOCUTOR: Por que poderia não existir isso.

PERFEIÇÃO: Mas existe. Perfeitamente como existe. Qual é o problema?

INTERLOCUTOR: Não deveria ser assim!

PERFEIÇÃO: Então, não é perfeito porque vai contra sua vontade?

INTERLOCUTOR: Isso! Eu acho que não é perfeito desse jeito.

PERFEIÇÃO: Pronto! Isso é perfeitamente o que você acha.

INTERLOCUTOR: A imperfeição é perfeita, é isso?

PERFEIÇÃO: Que imperfeição? Tudo é perfeição. Não existe imperfeição.

INTERLOCUTOR: Tudo está perfeito na imperfeição.

PERFEIÇÃO: Não existe imperfeição!

INTERLOCUTOR: Tudo já está perfeito? Tudo que acontece está perfeito, por mais que eu não consiga ver.

PERFEIÇÃO: Por favor, muita atenção no que estou dizendo. O entendimento aqui é sutíl. Tudo é perfeição. Só existe perfeição. Ou seja, não é que todo acontecimento está perfeito: acontecimento é perfeição acontecendo.

INTERLOCUTOR: Mas torturar, matar, abusar do outro, isso é perfeito?

PERFEIÇÃO: Por que não seria?

INTERLOCUTOR: Porque não penso assim. Isso não é perfeito para mim.

PERFEIÇÃO: Isso é perfeitamente o que você pensa.

INTERLOCUTOR: Então, meu conceito de perfeição que está errado?

PERFEIÇÃO: Qual é seu conceito de perfeição?

INTERLOCUTOR: Que fosse do jeito que eu penso, sem guerras, etc.

PERFEIÇÃO: Para você, perfeição é quando acontece do jeito que você quer? É isso?

INTERLOCUTOR: Sim, quando acontece do jeito que eu acho que tem que ser.

PERFEIÇÃO: E se os outros pensarem a mesma coisa, como fica a convivência? Você acha que os outros tem que ser assim para ser perfeito. Os outros acham que você tem que ser assado para ser perfeito. Vira uma guerra pela perfeição. E ai? Assim ou assado?

INTERLOCUTOR: Se tudo é perfeição, isso é perfeito também.

PERFEIÇÃO: Exato! Perfeita confusão. Perfeito fura olho.

INTERLOCUTOR: Na minha cabeça perfeição é sinônimo de coisa boa. Perfeito é bom.

PERFEIÇÃO: E o que é bom? Quando seu time ganha é bom? É bom para quem? O time adversário acha bom que seu time ganhou o jogo? Ou o time adversário acha ruim? Mas se perfeição é bom, o time adversário tinha que achar bom que seu time ganhou, não é? Mas acha ruim. Como é que fica isso?

INTERLOCUTOR: Perfeição, você pode se definir? Não estou entendendo o que você é?

PERFEIÇÃO: Eu sou tudo. Tudo é perfeição.

INTERLOCUTOR: Me dê um exemplo.

PERFEIÇÃO: Tudo é perfeição, então, tudo é exemplo. Seus dez dedos, por exemplo, são perfeitamente os dedos que você tem. Abre a mão e fecha mão. Viu? Você perfeitamente fez isso.

INTERLOCUTOR: Então, não tem como sair fora da perfeição?

PERFEIÇÃO: Tudo é perfeição. Como sair fora do tudo? Para onde você vai?

INTERLOCUTOR: Tudo o que acontece é perfeição então?

PERFEIÇÃO: Exatamente! O que você chama de acontecimento sou eu acontecendo.

INTERLOCUTOR: Todo acontecimento, independente de eu gostar ou não gostar, é perfeito?

PERFEIÇÃO: Sim, tudo que você experimenta é perfeitamente o que você está experimentando.

INTERLOCUTOR: Perfeição, você é a realidade?

PERFEIÇÃO: Também! Eu sou tudo. Perfeição na criação é assim: optou – experimentou. É por isso que você sempre experimenta o que opta, conscientemente ou inconscientemente.

INTERLOCUTOR: Você é uma coisa acabada?

PERFEIÇÃO: Não sou uma coisa, possibilito todas as coisas. No caso da criação de realidade, possibilito você experimentar a coisa que está optando. Não seria perfeito se fosse diferente.

INTERLOCUTOR: Quero saber se você é um conceito fechado?

PERFEIÇÃO: O que eu estou dizendo é que eu não sou um conceito. A palavra perfeição é meu nome, mas eu não sou meu nome, assim como você não é o seu.

INTERLOCUTOR: Então o conceito grego de que perfeição é uma escultura acabada não existe?

PERFEIÇÃO: Ótima pergunta! Vamos usá-la para entrar em uma parte interessante da conversa sobre mim. A escultura feita pelo escultor é feita como?

INTERLOCUTOR: Através das opções do escultor.

PERFEIÇÃO: Isso! Quando o escultor opta dar uma marretada, experimenta essa opção, opta por outra, experimenta a outra opção, e assim por diante. A obra é a perfeita expressão das opções do escultor. Claro que a obra passa por fases até ficar concluida. Mas é perfeição inconclusa e concluída.

INTERLOCUTOR: O que eu crio é perfeito?

PERFEIÇÃO: É perfeitamente o que você está optando criar. Por isso está experimentando. Por exemplo, você está optando conversar comigo, por isso está experimentando a conversa. Agora imagine que você estivesse optando conversar comigo, mas estivesse experimentando assistir televisão. Estaria perfeito?

INTERLOCUTOR: Não.

PERFEIÇÃO: E jamais isso vai acontecer, nem com você nem com ninguém, porque eu existo.

INTERLOCUTOR: Minha realidade está perfeita?

PERFEIÇÃO: Sua realidade é sempre o perfeito resultado do que você está optando. Por isso quando você muda de opção, você experimenta outra realidade.

INTERLOCUTOR: Então tudo que estou experimentando é perfeito?

PERFEIÇÃO: Você disse “perfeito”, mas creio que você quer dizer “bom”. Você está sempre experimentando o que está optando. Exatamente o que está optando. Perfeitamente o que está optando. Agora, se sua experiência está agradável ou desagradável, se é boa ou ruim, isso não é comigo. Isso é com você. Quem está experimentando é você, quem está optando é você, eu apenas garanto a perfeita correspondência entre opção e experiência.

INTERLOCUTOR: Estou experimentando minha opção, mas não estou satisfeito. Como fico satisfeito?

PERFEIÇÃO: Sendo que você está usando o processo de optar para criar a experiência que você está experimentando, mas não está satisfeito, para você criar uma experiência que lhe agrade, você deve usar o mesmo processo que está usando. Ou seja, você deve optar por outra opção.

INTERLOCUTOR: Isso é óbvio.

PERFEIÇÃO: Exatamente! Óbvio ululante! Mas você esquece que optar é com você. E só com você. Você opta, eu faço com que você experimente o que optou. Eu trabalho para você, mas não trabalho por você. Quem opta é você, não eu. Quando você coloca uma bala de hortelã na boca, eu garanto que você experimente gosto de hortelã, e não de sabonete ou feijão. Eu não opto, mas faço você experimentar o que está optando.

INTERLOCUTOR: Mudo minha experiência através do arbítrio?

PERFEIÇÃO: Exato! Eu não controlo sua experiencia, apenas garanto a perfeição do processo, apenas garanto que seja perfeitamenta a experiência pela qual está optando.

INTERLOCUTOR: Entendi, agradeço a conversa.

PERFEIÇÃO: Disponha. Mas agradeça a si mesmo. Só estou aqui porque você está optando por conversar comigo. Até uma próxima opção.

FIM

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