CONVERSA PARA BOI ACORDAR

Sobre alienação humana

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

POVO: Tá brava comigo, Professora? O que foi que fiz? Me conta.

PROFESSORA: Eu fico indignada quando você fala que política não importa e dá de ombros. Você diz: foda-se quem vai ser eleito! foda-se a porra toda! Ai deixa os espertos se aproveitarem disso e quem se fode é você. Depois fica chorando o leite derramado! Você caga e depois reclama do cheiro. Claro que política é importante! Você precisa entender isso! Urgentemente!

POVO: Se eu me importasse com politica, daí seu problema comigo tava resolvido?

PROFESSORA: Sim. Mas você não se importa porque você acha que isso não muda nada.

POVO: Não muda mesmo! Nunca mudou!

PROFESSORA: Você pensa assim e vira um ciclo vicioso. Você não faz nada e nada muda.

POVO: Você acha que eu estou errado em pensar assim?

PROFESSORA: Sim, está!

POVO: Então, me esclareça. Me explique porque achar que politica não muda nada é um erro. Cê num é professora! Me explica.

PROFESSORA: Muda porque você é o povo, você decide.

POVO: Eu votei em um presidente, elegi um presidente, e o presidente atual é outro. Tá vendo como política não dá em nada?!

PROFESSORA: É que os políticos são uns filhos da puta. Foi golpe!

POVO: Tá vendo, Professora! Politica é besteira. Só tem roubalheira e enganação.

PROFESSORA: Mas você é o povo!

POVO: Engano seu, professora! A gente não é nada. A gente não é nem gente. A gente é só porcentagem. 30% votou no fulano de tal. Quem é esses 30%? É ninguém. É numero na planilha. É porra nenhuma! É só protocolo que os políticos usam para continuar fodendo a gente, sem sequer saber quem a gente é. Então, quem tá pensando errado, Professora? Eu ou a senhora?

PROFESSORA: … (em silêncio)

POVO: E ai professora, virou politica?!! Vai abandonar o povo também. Vai deixar a gente falando sozinho???? Era só blá blá blá sua preocupação com o povo?!!! Você também só está interessada no seu próprio umbigo, igual os políticos? Que decepção, Professora!

PROFESSORA: Exatamente! Você também só se importa com seu próprio umbigo, quer que tudo se foda, então, foda-se você!

POVO: Tiro no pé, né, Professora! Veio me convencer que sou culpado e acabou se dando conta que sou vítima, dos políticos, da sociedade, dos poderosos, da vida, do mosquito da dengue, do buraco na camada de ozônio (nem sei que porra é essa), mas enfim… percebeu, né? Nóis é vítima. Nem deus se importa com nóis, Professora. Pra deus ajudar um pouco. Só um pouquinho. Que nem custa nada pra ele, afinal ele é deus. Mas pra deus ajudar, só com subono, igual político. Eu tenho que ir na igreja, dar dízimo, rezar, seguir os mandamentos e os cambau. Se até deus só ajuda na base do suborno, então, nóis tá tudo fudido memo! O que resta pra nóis? Fazê churrasco, bebe pinga, cerveja, dança no baile funk, trepa com as cachorra… Fora isso, é ferro, Professora! Ferro atrás de ferro! Sabe esse cara que a senhora tá reclamando que nóis votou. Esse cara falou que vai ajuda a gente. Por isso que nóis votou nele. Se ele fuder com a gente também, se ele deixar a gente falando sozinho, não vai ser diferente do que a senhora tá fazendo. Nem deus. Nem ninguém…

PROFESSORA: Povo, você está certo. Continuem assim. Você é vítima mesmo.

POVO: E cadê a justiça, Professora? Eu sobrevivo da merda que sai da descarga de quem está comendo caviar? É justo isso? Como diz a música: “Com tanta riqueza por aí, onde é que está, cadê minha fração?”. E ainda dizem que incomodo porque faço ponto na frente do restaurante chique: “Ó seu politico que tá me fodendo… Posso vigiar teu carro, te pedir trocados, engraxar seus sapatos”. Qual a justiça nisso, Professora?

PROFESSORA: E o que fazer então? Você quer continuar assim? Quer que o mundo continue assim? Se você não fizer nada, nada irá mudar. Todos podem viver bem nesse planeta. Não é tão apertado. Cabe todo mundo.

POVO: Ué, professora, se a senhora que é professora, que é escolada, não sabe o que fazer, nóis que mal sabe soletrar o nome, que acorda de madrugada, que passa o dia inteiro fazendo faxina, apertando parafuso, varrendo chão, e depois volta pra casa só pra fazer tudo de novo… nóis é que vai sabê! Professora, você acha que em vida de escravo sobra tempo pra saber de alguma outra coisa senão fugir do chicote? É linda sua filosofia, Professora! Agora, um dia que a senhora estiver com fome, pega sua filosofia, cozinha junto com seu diploma e come!!! Depois me diz se matou sua fome. Quando seu filho estiver morrendo na porta do hospital, aplica nele uma injeção de blábláblá! Ou então chama um sociólogo para fazer aquela cirurgia de tendinite que você pegou de tanto torcer pano de chão fazendo faxina na casa de Vossa Excelência senhor Deputado.”Não é tão apertado. Cabe todo mundo”. Só se for no seu cu, professora! Esse seu discursinho de merda! Tá parecendo politico mesmo! Daqui a pouco vai vir me doutrinar com aquele papo de amor, espirito, consciência, 10 passos para o sucesso. Piada, né? Mas diz ai, professora!!! A solução é votar na fada ou no gnomo?

PROFESSORA: … (em silêncio)

POVO: Fala ai professora!!!!! A realidade comeu sua língua????

PROFESSORA: Não sei de nada. Só acredito em umas coisas. E posso estar enganada.

POVO: Pois é, o povo tá bem servido de professor! Um melhor que o outro. Só que não! Tem algo mais que a senhora quer reclamar de mim? Se quiser, pode reclamar! Faz mais um pouco desse seu mimimi com nutela! Ah! E escuta essa música ai professora, quem sabe você aprende alguma coisa:

PROFESSORA: Dizer foda-se não resolve.

POVO: Ué! Você mesmo disse pra mim: foda-se povo!

PROFESSORA: É que na hora do aperto a gente manda qualquer coisa se foder. Mas não é sério. Se você sou eu, se o mundo sou eu, para mudar você eu tenho que me mudar, para mudar o mundo eu tenho que me mudar. Se quero que você se importe com politica, eu que devo me importar com política. Se quero que o mundo escolha melhor, eu que devo melhorar minhas escolhas. Eu devo ser a mudança que quero ver no mundo.

POVO: Ai sim professora! Agora começou a rezar sua própria cartilha.

PROFESSORA: É verdade! Agora entendi.

POVO: Que bom! Para terminar, vou te contar um pouco mais sobre mim e te dar minha opinião sobre você. De fato, Professora, eu não sei falar o que penso e o que sinto. Não sei nem ler e escrever. Estou contando com a ajuda do escritor desse livro para poder me comunicar com você. Eu mesmo não tenho consciência de tudo que ele te disse sobre mim. Eu experimento tudo que ele disse, mas não tenho discernimento nenhum do que experimento. Eu vou no tranco. Eu vivo igual rato de laboratório. Se me dá choque, eu corro. Se me dá queijo, eu obedeço. Só que eu nem sei disso. Eu ignoro que me ignoro.

Eu vivo quase igual um bicho. Não porque não tenha humanidade. Tenho. Assim como você. Mas não basta ter humanidade para viver como um ser humano, assim como não basta ter computador para navegar na internet. Eu tenho humanidade, mas não sei usar. Assim como eu tenho computador e celular, mas também não sei usar. Nunca ninguém me ensinou o que é ser humano. Nunca ninguém me ensinou o que é pensamento, crença, desejo, sofrimento, felicidade, consciência, etc. Não sei o que são essas coisas, para que servem e o que faço com tudo isso. Pra mim, tudo isso ai é grego. Não entendo nada. Só fica esse bombardeio de coisa maluca dentro de mim e me sinto feito um cego num tiroteio. As vezes entro em pânico.

Quando penso na injustiça social, daí que piora tudo. Fico com tanta raiva que dá vontade de pegar um pau e sair por ai quebrando tudo. Só não faço isso porque é treta. Vou ser preso e tal. Mas que dá vontade, dá. Fico revoltado. Como disse, não é fácil viver comendo a merda de quem se alimenta de caviar. E tem gente que diz que dinheiro não traz felicidade. Mas é sempre gente que tem dinheiro que diz isso. Gente de barriga cheia. Gente que fica pensando na vida e cagando regra. São os pofessores, igual você. Minha vida é fugir da morte. Sem pensar, só no instinto. Eu vou no tranco, professora. Eu vô indo, indo, até morrer e não ter mais para onde ir.

Usando uma metáfora, que também nem sei o que é: eu sou analfabeto em ser humano. Não sei escrever nem a letra A . Isso foi uma das coisas que tentei te mostrar na conversa. Você veio me cobrar consciência política!!???! Acooooorda, Professora!!!! Eu não sei nem o que é ser um indivíduo, como vou saber o que é ser um coletivo?? Acooooorda, Professora!!!! Consciência política é letra Z . E consciência politica mesmo! De fato! É coisa para iluminados. Jesus tinha consciência política. Buda tinha consciência política. Por isso que esses caras, ao invés de se candidatarem para cargos públicos e pedirem meu voto, optaram por um caminho que a senhora conhece bem: foram professores. Esses caras optaram por ensinar o beabá do que é ser humano. E tanto explicaram como foram a lição viva de suas explicações.

Hoje, professora, nessa conversa, você teve a oportunidade de me tirar da ignorância. Você teve a oportunidade de me explicar o que é ser humano e de como posso viver melhor. Eu fui um aluno em suas mãos. Mas você lavou as mãos. Você deu de ombros para mim, exatamente como me acusa de fazer. Não te culpo por isso professora. Sei que você não é iluminada até Z, mas você também não é tão ignorante como eu. Se você já sabe o que é ser humano até a letra C, você já pode me ensinar a letra A e B . Não precisa me ensinar o que você não sabe. Mas você sempre pode me ensinar o que já sabe. E principalmente, deve ser o exemplo do que você já sabe.

Através de uma simples conversa, e gastando nada mais do que saliva, você teve a oportunidade de mudar o jeito de pensar do mundo, e de ajudar o mundo a viver melhor, mas você deu de ombros. Novas oportunidades virão, Professora. Aluno para aprender o que é ser humano, não falta. Povo carente de ajuda para despertar a consciência individual e coletiva, não falta. Então, Professora, sugiro que em suas próximas oportunidades, se quer mesmo me ajudar, não dê mais de ombros para mim.

É isso, Professora! O escritor colocou um monte de palavras na minha boca, porque eu mesmo, embora sinta e experimente tudo isso, só ia conseguir te dizer: “êta mulher chata”. E depois seguir minha vida de gado.

“Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas!”

FIM

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