COMO VOCÊ VIROU OUTRO

Sobre outroísmo

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

O natural é você viver sendo você. Isso deveria ser sempre. Isso deveria ser regra, não exceção. Mas na prática a teoria é outra, o que é natural não acontece. Na prática você vive sendo outro. Você vive sendo seus pais, seus amigos, seus professores, sua sociedade, o comercial de televisão, o partido político, a religião, a moda, etc. Esse é o fato. Para nomear esse fato e facilitar o entendimento dele, vou chamá-lo de “outroísmo”. Outroísmo tem várias facetas, então, dá para definir de várias maneiras. Nesse livro vou definir da seguinte maneira: “Outroísmo é você sendo outro”. Entendido isso, a pergunta a ser respondida nesse livro é: O que acontece que impede o natural de acontecer? Ou seja, como você virou outro?

A resposta é simples. O que impede o natural de acontecer é o cultural. Ou seja, você virou outro porque foi educado para ser outro. Isso é uma característica da experiência humana. Bicho e planta nascem sabendo viver na própria natureza e vivem nela, sem educação. Você nasce ignorante da própria natureza e se não aprende pelo menos a sobreviver, você morre. A experiência humana é COM educação.

Vou trocar a palavra “educação” por “aprendizagem”. O que é aprender? Aprender é imitar até decorar. Pense em tudo que você aprendeu e perceba como você aprendendo foi você imitando e decorando algum gabarito. Lembra do caderno de caligrafia da escola? O que você fazia no caderno de caligrafia? Você praticava imitar as letras do alfabeto. Educar é propor um gabarito a ser imitado. Aprender é decorar um gabarito.

Quando você pensa em educação, você pensa em escola. Você também foi educado a pensar assim. Mas educação é o tempo todo. Na escola você é educado em gabaritos técnicos, como português, matemática, ciências, etc. Educação escolar é um tipo específico de educação, mas a partir do momento em que você nasce, você recebe gabaritos sem parar, de todos os seres humanos com quem convive. Quando sua mãe lhe disse, “Coma de boca fechada”, por exemplo, ela estava lhe dando o gabarito dela para você imitar.

Aprendizagem é por imitação. Quando você era neném, você ouvia os sons e tentava imitá-los. Você não foi à escola para aprender a falar português, você aprendeu antes de ir a escola. Você aprendeu sozinho. Inclusive gramática. Quando você foi para escola você já usava o sujeito e o verbo corretamente. Você já dizia: “Eu comi tomate”. E não dizia: “Tomate comi eu”. Como você aprendeu gramática sem ter aula e com poucos anos de vida? Ouvindo o gabarito e imitando até ficar igual ao gabarito.

Agora a gênese do outroísmo vai ficar evidente e prática. Pergunto: Que gabarito você imitou para ensinar você a ser você? Você imitou todos os gabaritos que lhe deram, menos o seu. Você imitou o gabarito do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, do seu professor, dos seus colegas, da sua sociedade, da sua igreja, do comercial de margarina, dos filmes no cinema. Assim como você aprendeu português imitando os sons emitidos pelos outros, você aprendeu a viver imitando os comportamentos, os valores, as crenças e os gostos dos outros. O que o outro dizia que era certo e bom, você imitava. O que o outro dizia que era errado, pecado e proibido, você imitava rejeitando. Você se ensinou a ser você imitando o gabarito dos outros.

Quando você nasce, você não sabe de nada. Você não tem a menor ideia de que você está em uma brincadeira de autorrealização e que você tem seu próprio gabarito. E pior! Seus educadores também não sabem disso. E eles também foram educados por outros que também não sabiam disso. E assim por diante. O processo de educação vai se repetindo de pai para filho, nunca de filho para pai. Quando você nasceu, não foi você que falou para os seus pais: “Oi! Meu nome é fulano, eu sou seu filho!”. O que aconteceu foi o oposto. Você nasceu e seus pais lhe ensinaram que seu nome é Fulano. Ensinaram muitas outras coisas. Seus pais lhe deram gabaritos. Desde então você imita e reproduz esses gabaritos automaticamente para viver, assim como reproduz as letras do caderno de caligrafia para escrever. Por isso você virou outro.

O processo reverso é a falência da sua educação. Me refiro a educação em SER, não em FAZER. Não tem problema você ser educado em português, matemática, biologia, dirigir carro, amarrar o cadarço dos sapatos, etc. Todas essas aprendizagens lhe ajudam a viver bem. O problema são os gabaritos de SER. Cada gabarito que você recebeu do outro é como um programa de computador que diz o que você TEM QUE SER. Se você é homem, por exemplo, provavelmente sua mãe lhe deu um gabarito assim: “homem não chora”. Você estava sofrendo e começou a chorar, daí sua mãe lhe disse: “Pare de chorar moleque, homem não chora!”. Sua mãe nem sabe o que fez, mas nesse momento lhe programou com o gabarito dela. E pior! Muito provavelmente nem dela era, era da mãe dela. E nem da mãe dela era, era da sua bisavó. E nem da sua bisavó era… Mas enfim, sua mãe lhe deu o gabarito de que homem não chora, você introjetou esse gabarito, imitou, imitou, imitou, até virar um piloto automático. Por isso hoje em dia você quer chorar, precisa chorar, mas o piloto automático não deixa.

Seu piloto automático é sua programação mental subconsciente. Quase tudo que você faz não é bem você que faz, é sua programação mental subconsciente. Programação mental subconsciente serve para que você possa executar comportamentos complexos sem precisar pensar, como falar português, por exemplo. Então, programação mental subconsciente é ótimo! É de grande ajuda para você. O problema é quando sua programação mental subconsciente é programada para funcionar contra seu próprio gabarito. Por exemplo, quando seu gabarito é de aventureiro e você é educado para ser caseiro.

Algumas tradições chamam a programação mental subconsciente de ego, e dizem que você deve “matar o ego”. Isso é uma metáfora e geralmente mal compreendida. Sem uma programação mental subconsciente você não consegue nem mexer os dedos. Você morre. Além disso, não é sua programação mental que programa você, é você que programa sua programação mental. Então, não precisa matar nada. “Matar o ego” significa reeducar o subconsciente fazendo-o funcionar de acordo com seu próprio gabarito.

Seu subconsciente é como um computador que lhe possibilita executar tarefas complexas sem precisar pensar, de forma automática. Essa é a função dele. É assim que ele funciona. Mas assim como um comptador, seu subconsciente apenas faz o que foi programado para fazer, sem saber o que está fazendo. Cabe a você, usuário, saber se o automatismo que seu subconsciente está executando é bom ou ruim para você. Se o automatismo que seu subconsciente está executando não está em acordo com seu gabarito, é você, e só você, que deve reprogramá-lo. Para explicações sobre como fazer isso, leia o livro: CONTROL+EU.

FIM

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