CADA UM NO SEU GABARITO

Como funciona o destino

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | SEU DESTINO

Sim, existe destino. Se não existisse destino, não existiria certo e errado, bem e mal, etc. Sim, existe arbítrio também. Se não existisse arbítrio, não existiria a possibilidade de você optar pelo que é certo ou errado (para você), bem ou mal (para você), etc.

Daí tem a tradicional pergunta: como pode existir destino e arbítrio?

O problema com essa pergunta é que ela está baseada em um entendimento equivocado do que é destino.

Pense em um jogo. Jogar é fazer escolhas para atingir um objetivo. Toda vez que você está jogando um jogo, você opta para atingir o objetivo do jogo. Seu arbítrio tem sempre essa única e mesma motivação, intenção, propósito, destino. Esse é primeiro esclarecimento que resolve o conflito entre destino e arbítrio. Destino é objetivo. Então, destino e arbítrio não são opostos, são complementares. O segundo esclarecimento é que destino não é você destinado a FAZER algo, é você destinado a SER algo.

Destino não é algo que você está destinado a FAZER, destino é algo que você está destinado a SER. E que algo é esse? Qual é seu destino? O que você está destinado a SER? Simples! Óbvio! Você está destinado a ser você. Esse é seu destino: autorrealização. Aliás, esse é o destino de todos os seres.

Autorrealização é o jogo que todos os seres do universo estão jogando agora e sempre. Todo ser é predestinado a ser o que é. Todo ser se destina a si mesmo. Todo ser se destina a realização de si. Todo ser se destina a autorrealização.

O destino da Mônica é ser Mônica. O destino do Cebolinha é ser Cebolinha. O destino da Magali é ser Magali.

Claro que a Mônica sendo Mônica, fará coisas de Mônica. O fazer se desdobra do ser. Mas o destino da Mônica não é fazer algo, como por exemplo, arremessar um coelho da Terra até a Lua. O destino da Mônica é ser Mônica. No que a autorrealização da Mônica vai resultar para a Mônica, em termos de acontecimento, é o que ela vai descobrir conforme for se autorrealizando. Pode até ser que resulte na Mônica arremessar um coelho da terra até a lua, mas se isso acontecer, é porque isso é a Mônica sendo Mônica.

Uma boa maneira de pensar em autorrealização é pensar que você é uma semente de si mesmo. Semente é você potencial. Você vivendo é você sendo você, realizando seu potencial, se autorrealizando. Então, conforme você vai vivendo, você vai experimentando e descobrindo o que você é.

Você já é o fim da viagem. Você já é seu destino. Você já é você assim como uma semente já é a árvore. Só que você não sabe que tipo de árvore você é. Se você soubesse, não tinha brincadeira de descobrir. Você brinca de autorrealização para descobrir passo a passo.

É por isso que algumas tradições filosóficas dizem que você já é o que será. Você já é seu futuro porque a árvore de amanhã já está na semente de hoje. Mas a semente é árvore em potencial. Brotar e crescer é a árvore se autorrealizando. O mesmo com você em seu processo de autorrealização.

Eis aí explicado o sentido da vida: ser. Sabe aquelas três perguntas: Quem eu sou? De onde eu vim? Para onde eu vou? Você é você, vem de você e vai para você.

Agora vou explicitar algo que causa muita confusão.

Você sabe que você é você e que não tem como deixar de ser você. Isso é obvio! Então, autorrealização é uma grande besteira, pois você é você, inevitavelmente.

Aí tem uma sutileza.

Sim, você é você, inevitavelmente, não tem outro jeito. Mas o fato de você ser você, não significa que você ESTÁ SENDO VOCÊ.

Você é SER. Viver é ESTAR. Viver é você optando entre estar sendo ou não estar sendo você. Você pode viver sendo você, mas também pode viver não sendo você. Ou seja, ao viver você pode errar seu destino e viver fora dele. Como? Vivendo em uniformidade. Negando sua unicidade. Vivendo de forma outroísta.

Vou trocar a palavra “destino” por outra palavra para explicitar a relação do outroísmo com o destino.

Brincar de autorrealização é como fazer uma prova sobre si mesmo. Toda prova tem gabarito. É por causa do gabarito que uma prova tem certo e errado. Seu destino é seu gabarito. Ou seja, seu destino é o que é certo para você. Outroísmo é a opção errada que coloca você a prova.

Por que errada? Porque quando você opta pelo outroísmo você está se obrigando a viver igual ao outro, de acordo com o gabarito do outro. O outro tem um gabarito diferente de você (destino diferente) e vice-versa. Então, outroísmo é a opção errada. A prova disso é que não funciona, é ruim, faz você viver igual semente de abacate tentando ser laranjeira.

Ficou claro o que é destino? Alguma pergunta?


02 | SEU GABARITO

Participante: Cadê meu gabarito?

Seu gabarito está na sua singularidade. Seu gabarito é o que faz você único, diferente dos outros. Mas só você pode saber de si, então, só você pode saber (descobrir) qual é seu gabarito.

Participante: Meu gabarito é quando estou vivendo em acordo comigo?

Não! Quando você está vivendo em acordo consigo você está em acordo com seu gabarito (destino). Mas o gabarito (em si) é sua unicidade.

Participante: Meu gabarito é diferente do gabarito dos outros.

Exato! A brincadeira é a mesma: autorrealização. Mas cada um tem um gabarito diferente. Meu gabarito é de Ferrari. Seu gabarito é de Magali. O gabarito da Mônica é de Mônica. O gabarito do Cebolinha é de Cebolinha. O gabarito de Jesus é de Jesus. E não funciona, por exemplo, o Cebolinha tentar ser Jesus, nem Jesus tentar ser o Cebolinha. Tentar é possível. Mas é impossível conseguir. Por isso vive mal.

Participante: Eu sempre tenho arbítrio? Até na infância?

Sim, você sempre tem arbítrio. Até se colocar em estado de ignorância do arbítrio é você usando seu arbítrio. É exatamente isso que acontece na infância. Você tem arbítrio, mas não tem maestria em usá-lo. Você ignora como usá-lo, por isso parece que você não tem arbítrio.


03 | ACEITANDO O DESTINO

Tem uma cena no filme Matrix que trata do dilema do destino. É a cena da ponte. Neo está dentro de um táxi, o tempo urge, então, lhe dão um ultimato: “Ou dá ou desce!”. Neo abre a porta do táxi e está prestes a sair. Trinity segura sua mão e lhe diz: ”Não faça isso, Neo, você já conhece essa rua e sei que não quer mais caminhar por ela”. Ou seja, a todo instante estamos escolhendo entre caminhar pela uniformidade (todos no mesmo gabarito) ou pela universalidade (cada um no seu gabarito).

A cena final mostra a opção pela universalidade. Neo pega o telefone e fala algo assim para Matrix, que simboliza a uniformidade: “Eu despertei e vou seguir meu próprio gabarito, vou viver meu destino. Não sei onde meu destino vai me levar, mas eu vou e pronto! Se isso te incomoda: problema seu!”.

Quero aproveitar as palavras do Neo e concluir essa conversa falando sobre a prática de viver o próprio destino.

Quando você decide viver seu destino, você não sabe para onde você está indo. Embora você saiba emocionalmente que deve ir por aqui ou por ali, você não sabe para onde seu destino vai te levar em termos de circunstâncias. Você sabe que está em autorrealização. Você sente isso porque você se sente encaixado em si. Mas você não sabe para onde o próximo passo vai te levar. Essa é a graça da brincadeira de autorrealização humana.

Mas sendo assim, quando você opta por viver seu destino, você não está optando por chegar num futuro determinado. É justamente o oposto. Você está se atirando no desconhecido. Você está se permitindo ser árvore da sua própria semente e dar seus próprios frutos, seja lá que árvore ou frutos forem. Optar por viver seu destino é uma entrega absoluta a si mesmo.


04 | VOCÊ DESCONHECIDO

Caminhar pelo próprio destino é caminhar por um caminho que não existe, mas que você faz existir. É pisar em um chão que não tem, mas que surge debaixo do seu pé quando você pisa em si.

Uniformidade é caminhar pelo conhecido. A uniformidade te mostra o chão que você deve pisar. “Olhe que chão bonito! Pise aqui!” Você pisa. “Venha ser médico, pise aqui!” Você pisa.

Caminhar pelo conhecido é mais fácil e cômodo. Você já sabe onde a rua vai dar. Viver o próprio destino é pular no desconhecido. “O que tem no fundo do desconhecido?” Pula e vê. “Não pulo não! Prefiro viver na uniformidade”. É uma opção. Faz parte da brincadeira. Mas quando você decide viver sendo você, quando decide pular no desconhecido, o que acontece é que você cai no seu colo.

O que tem no fundo do desconhecido é você mesmo. Mais de você. Mais autoconhecimento. Pois tudo que você experimenta é sempre você.

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