APOCALIP-SE

O fim da ignorância de si

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | DIA DO APOCALIPSE

Você não é uma pessoa, você é um aluno da experiência humana. Ser humano não é ser uma pessoa, ser humano é ser um aluno. Você não vive, você estuda a experiência humana. Viver não é viver, viver é estudar. O dia que você descobre isso é o dia do seu apocalipse.

Apocalipse não é o fim do mundo, apocalipse é o fim da ignorância. A palavra apocalipse significa descoberta. Apocalipse é você despertando para si mesmo. O apocalipse não destrói o mundo, destrói sua ignorância sobre si mesmo, sobre o que é ser humano e sobre o que é viver.

Para aprender a ser humano, você não vai para uma escola, faz o ensino primário, secundário, superior e depois começa a ser humano. Para aprender a ser humano você se transforma em ser humano, você se transforma na escola. Aprender a ser humano é 100% prático, 100% vivencial e 100% do tempo. O jeito que você aprende a ser humano é sendo humano.

Claro que “entrar” na experiência humana, sem saber o que é ser humano, é igual entrar em um labirinto de olhos fechados. Você só consegue dar cabeçada na parede. Mas se você já soubesse o que é ser humano antes de ser humano, que sentido teria aprender?


02 | DESTINO HUMANO

Uma coisa é você se entender como “ser vivo humano”, outra coisa é você se entender como “ser vivendo uma experiência humana”. São entendimentos completamente diferentes. Entender que você é “ser vivendo uma experiência humana”, já é entender que a experiência humana é escola. Entender que você é “ser vivo humano” pode ser, por exemplo, entender que você é consequência da aleatoriedade da vida, do universo, da matéria, etc. No entendimento de que você é “ser vivendo uma experiência humana”, não existe aleatoriedade, existe destino, existe propósito claro e permanente: aprender a ser humano.


03 | POR QUE VOCÊ É HUMANO?

Você é humano (atualmente) porque você é um ser interessado em aprender o que é ser humano. Os seres atualmente interessados em aprender o que é ser animal, estão tendo experiência animal, os seres atualmente interessados em aprender o que é ser vegetal, estão tendo experiência vegetal, os seres atualmente interessados em aprender o que é ser mineral, estão tendo experiência mineral, e assim por diante. Cada ser está sempre, e exatamente, na experiencia do seu interesse. Seu interesse atual é aprender a ser humano, por isto, atualmente, você está sendo humano.


04 | HUMANO SER

O entendimento de que a experiência humana é escola para aprender a ser humano, implica em várias mudanças de entendimento. A principal mudança é de que você é um “ser humano”, e não um “humano ser”. Ou seja, você é um ser, mas atualmente, está vivendo uma experiência humana. Você se chama de “ser humano”, mas você se entende como “humano ser”. Humano ser é um equívoco. Assim como é preciso que primeiro exista a televisão, para depois acontecer a experiência dos filmes, também é preciso que primeiro exista o ser que você é, para que depois, o ser que você é possa viver experiências, seja humana, seja de qualquer outro tipo.


05 | TEMPORAL E ATEMPORAL

Imagine uma lousa branca. A lousa é branca para que tudo possa ser desenhado nela. A lousa branca é a possibilidade de todos os desenhos. Analogamente, assim é o ser que você é, uma lousa, branca, para que infinitas experiências possam ser desenhadas. Atualmente você está sendo humano, ou seja, está desenhando experiência humana em si mesmo. Você, enquanto ser, está antes da sua experiência humana. E a palavra “antes” não significa tempo, significa “causa”. A causa é anterior ao efeito. Sem causa não tem efeito. Sem potencial para experiência humana, não tem experiência humana. Você, enquanto ser, é a causa da sua experiência humana.

Experiência é como viagem, começa e termina. Mas quem termina é a viagem e não o viajante. Analogamente, não é porque a experiência humana acaba, que o ser que você é deixa de ser. Um viajante pode fazer outra viagem, e outra viagem, e assim por diante. Analogamente, o ser que você é, também pode experimentar outra experiência, e outra experiência, e assim por diante. Em maior ou menor escala de tempo, toda experiência termina. Então, a experiência humana também termina. Mas o ser que cada um é não é temporal como as experiências, porque ser é potencial para as experiências temporais.


06 | LÓGICA DO VITIMISMO

Experiência humana é escola para aprender a ser humano. Agora, um dos grandes desafios desta escola é que você não lembra da matrícula. Imagine um aluno numa sala de aula que não sabe que é aluno numa sala de aula. Assim é você todo dia. É por isto que sua experiência humana lhe parece aleatória, cruel e desproposital. Por você não perceber o ser que é, e não lembrar da matrícula, surge em você o vitimismo. Ou seja, surge em você uma lógica, quase irrefutável, que grita: “Eu não pedi para ser humano!”. Eis a origem da sua revolta. Dentro desta mentalidade, tudo que você experimenta, seja o que for, é injusto por princípio.

A lógica do vitimismo funciona assim: “Não há nada que me prove e garanta que estou vivendo uma experiência humana por opção. Logo, ser humano, ou é injusto, ou é aleatório. Em ambos os casos, não sou responsável, sou vítima!”. A lógica do vitimismo, somada ao esquecimento da matrícula, legitimam sua revolta e crença no vitimismo.

Mas faz parte da aprendizagem você se revoltar. Faz parte da aprendizagem você se acreditar vítima. Tudo na experiência humana serve para você aprender a ser humano. Por isto o esquecimento é fundamental. Sem esquecimento é impossível brincar de descobrir. Você precisa acreditar que é vítima para poder se descobrir responsável. Você precisa acreditar que é humano ser, para poder descobrir que é ser humano. Você precisa se revoltar e ficar com raiva da vida, para poder descobrir que sua revolta e a raiva, eram justamente para você descobrir o que é viver.


07 | TROMBETAS DO APOCALIPSE

Ignorância de si e esquecimento da matrícula, faziam parte de uma etapa da experiência humana. É por isto que estas questões não vinham ao consciente coletivo. Nossa coletividade não tínha interesse que estas questões viessem ao consciente para não estragar o propósito de aprendizagem desta etapa. Mas esta etapa está consumada. Por isto você está lendo sobre o apocalipse. Por isto, questões que antes eram raras e restritas, estão surgindo e surgirão cada vez mais no consciente individual e coletivo. São as trombetas do apocalipse. Chegou a hora de você despertar. E quando você despertar acontecerá algo muito simples: você irá assumir a responsabilidade por sua experiência humana. É inevitável, pois o vitimismo só se sustenta por ignorância. Sem ignorância a lógica do vitimismo se torna obviamente equivocada.


08 | IGNORÂNCIA PHD

Você é aluno da experiência humana, então, você não sabe o que é ser humano. Ser aluno significa não saber. Mas seu problema não é não saber, seu problema é que você acretida que sabe. Você é um aluno que acredita que é professor. Acredita tanto, que anda por ai dando aula para deus e o mundo, e brigando com os outros para mostrar quem sabe mais. Sua ignorância é Phd. O problema nisso é o mesmo de acreditar que você sabe pilotar um avião quando de fato ignora. É por isto que sua convivência é um desastre. Como produzir boa convivência humana sendo que você ignora o que é ser humano? Impossível. E como sair da ignorância Phd sem admiti-la? Impossível também. Por isto o apocalipse, para que sua ignorância Phd fique evidente para você mesmo e você possa se libertar dela.


09 | MESTRE DE SI MESMO

Se você é o aluno, quem é o professor? Esta é a revelação mais desconcertante do apocalipse. O professor é você também. Cada um é, simultaneamente, aluno e professor de si mesmo, mestre e discípulo. Só cada um pode saber de si, então, só cada um pode ser professor de si. Atualmente você acredita que o professor é outro. Tanto acredita, que inventa diversos nomes para separá-lo de si, e transformá-lo em outro. Chama de vida, deus, destino, universo, acaso, natureza, espiritualidade, metafísica, etc. Acreditar que o professor é outro, também faz parte da aprendizagem. Antes do apocalipse acreditamos assim: “Não sou o criador da minha experiência! Não sou! Não sou! Não sou!”. Até que chega o apocalipse e: “Ops! Eu sou o criador da minha experiência!”.

Casamento, maternidade, profissão, medo de ladrão, medo da morte, solidão, raiva, decepção amorosa. Enfim, nada na sua experiência é por acaso, aleatório, tudo que você experimenta é você se dando aula sobre ser humano. Se você aproveita ou não a aula, é outra conversa, mas tudo é aula, oportunidade para ampliar sua maestria em ser humano. Seja qual for a experiência que está experimentando, eis a aula que está se dando.


10 | COMPETÊNCIA HUMANA

Como você pode saber se está indo bem ou mal em sua aprendizagem? Eis a razão de ser da felicidade e do sofrimento. Felicidade é você, professor, mostrando para você, aluno, que você está competente em ser humano. Sofrimento é você, professor, mostrando para você, aluno, que você está incompetente em ser humano. Felicidade é confirmação de competência. Assim como tocar bem piano é confirmação de competência em tocar piano, assim como dirigir bem carro é confirmação de competência em dirigir carro, assim como falar bem um idioma é confirmação de competência em falar aquele idioma, viver bem é confirmação de competência em ser humano.


11 | FIM DA VIDA HUMANA

Um homem muito culto estava viajando e precisou atravessar um rio. O único jeito de atravessar o rio era pegando uma balsa. Ele entrou na balsa, e durante a travessia, foi conversando com o balseiro.

— Balseiro, você sabe matemática?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.
— Você sabe a história do mundo?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.
— Balseiro, você sabe ciência?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.
— Balseiro, você sabe literatura?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.

Então, a balsa rachou e começou a encher de água. O balseiro perguntou:

— O senhor sabe nadar?
— Não sei não! — respondeu o homem.
— Ah, então, o senhor perdeu sua vida inteira! — exclamou o balseiro.

O barco afundando é o apocalipse, é o tira teima, é a hora de você avaliar se aprendeu o que era fundamental aprender da experiência humana. O homem culto é sua ignorância Phd, que sabe tudo de tudo, menos do que mais importa: saber de si mesmo. Por isto que o apocalipse é o fim da vida humana, ele deixa evidente que você não é uma pessoa, que você é um aluno. Deixa evidente também se você sabe mesmo ou é só teoria. Claro que você pode estudar e adquirir cultura, mas se você não sabe o fundamental, se não sabe nadar, de que adianta tanta cultura. O apocalipse lhe pergunta isso: “Você sabe o que é ser humano?” Se sua resposta é não, nunca é tarde para começar.


12 | JULGAMENTO FINAL

Imagine que você fez matricula em uma escola tipo internato. Você mora dentro da escola, só que você não assiste as aulas. Daí, terminado o ano letivo, você resolve fazer uma avaliação do seu nível de aprendizagem. Para fazer isto você conversa consigo mesmo:

— O que sei de química?
— Não sei nada.
— O que sei de geografia?
— Não sei nada.
— O que sei de história?
— Não sei nada.
— O que sei de matemática?
— Não sei nada.
— Então, não aprendi nada sendo aluno?
— Não, pois você não assistiu as aulas.
— E o que eu fiquei fazendo o tempo todo se só tinha isso para fazer?
— Também não sei.

Vamos transpor esta conversa para experiência humana.

— O que sei das emoções?
— Não sei nada.
— O que sei do pensamento?
— Não sei nada.
— O que sei do desejo?
— Não sei nada.
— O que sei de ser humano?
— Não sei nada.
— Não aprendi nada sendo humano?
— Não, pois você não assistiu as aulas.
— E o que eu fiquei fazendo o tempo todo se só tinha isso para fazer?
— Também não sei.

Julgamento final não é você sendo condenado ao inferno, ou sendo abençoado com o paraíso, é você conversando com sua própria consciência, analisando, avaliando, julgando seu próprio nível de aprendizagem em ser humano. Você está constantemente fazendo isso, por isso se arrepende e muda de comportamento. Julgamento final é você fazer isto que sempre faz, mas julgando a totalidade da sua aprendizagem. Vamos ampliar um pouco mais este entendimento. Você faz matrícula em uma escola para ser aluno da escola. Então, quando você mata aula, o que você está fazendo? Você está matando o aluno em você. Quando você mata o aluno em você, você é um aluno morto. É por isso que no dia do julgamento final são julgados os vivos e os mortos. Julgar os vivos e os mortos é você, professor, avaliando você, aluno, para averiguar se você é um aluno vivo ou um aluno morto.


13 | REINO DOS CÉUS

Imagine que um grupo de seres se juntem para criar um jogo que eles mesmos irão jogar. Eles conversam e decidem criar um jogo com um objetivo impossível. Nesse jogo, todos os jogadores devem acreditar e tentar realizar um objetivo, só que esse objetivo é irrealizável. Por que é irrealizável? Porque o jogo foi criado assim, com um objetivo impossível. Claro que assim que esses seres começarem a jogar esse jogo, devem esquecer que o objetivo é impossível, pois se tiverem consciência disso, estraga o jogo. Este grupo de seres criam o jogo e começam a jogá-lo. Daí, tentam realizar o objetivo impossível e fracassam. Não importa o que façam, nem quantas vezes façam, sempre fracassam. Por que fracassam? Porque criaram um jogo de objetivo impossível. Só que esqueceram disso, acreditam que é possível, então, continuam tentando. Agora, imagine que este grupo de seres somos nós, e este jogo é a experiência humana. Entendeu? Apocalipse? É por isto que você sofre. O objetivo que você acredita ser possível, é impossível. Você acredita que é possível. Vive como se fosse possível. Só que é impossível.

Que objetivo impossível é esse? Viver a vida. Não existe vida. Se não existe vida, como você pode viver a vida. É impossível. É irrealizável. Porém, a todo instante você tenta viver a vida. Fracassa repetidamente, mas persiste obstinadamente. E não entende porque fracassa. O motivo é simples. Você não consegue viver a vida porque não existe vida. O que existe na experiência humana é aula, aprendizagem, atividade de autoconhecimento. Agora já dá para entender o que faz você viver no reino da terra ou no reino dos céus, é seu entendimento sobre si mesmo, sobre o que é ser humano. Viver a experiência humana acreditando que você está vivendo uma vida, é viver no reino da terra. Viver a mesma experiência humana, ciente de que você está vivendo uma experiência humana, ciente de que ser humano é atividade de autoconhecimento, é viver no reino dos céus.


14 | APOCALIP-SE

Entrar na experiência humana não é abrir uma porta e caminhar para dentro de um lugar. Ser é lugar. Então, você não entra na experiência humana pela porta, você se transforma na experiência humana, se transforma em ser humano. É por isto que a experiência humana está em todos os lugares e em lugar nenhum. A experiência humana está em você. Quando você entende isto, entende também que viver é uma EUrekatividade, ou seja, é uma fantástica aventura de autodescobrimento. E conforme vai se descobrindo, vai conseguindo fazer tudo funcionar melhor, e vivendo melhor, e vai se tornando mestre em ser humano.

É importante entender também que aprender a ser humano são duas descobertas em uma. Um aspecto é o aspecto geral da experiência humana. Sua experiência humana é humana como as outras. O que você descobre neste aspecto, é coletivo. Mas cada um vive sua própria experiência humana. Por que? Porque cada um é um, único, singular, diferente. Isto é que nem laranjeira. Toda laranjeira é laranjeira. Mas cada laranjeira é única, ímpar, singular, diferente das outras laranjeiras. Então, o que você descobre, é igual e diferente.

Agora fica fácil entender o que é abrir os selos, é abrir a si mesmo, é se autoconhecer.

Então, se for do seu interesse: Apocalip-se!

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